Terça-feira, 28 de Agosto de 2012

Eduardo o Confessor: Esmalte Ouro

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia

 

Falantes mas ...

Chegámos finalmente ao ponto em que se consideram os esmaltes. Qual é a certeza de que esta suposta parofonia aplicada às cores é suficientemente razoável para ser aceite? Por quê não se atribuem os esmaltes a uma propriedade natural das entidades que se vêem delineadas nos brasões? Infelizmente as coisas não são assim tão simples. Ninguém poderá assegurar que esta ou aquela imagem é falante, por exemplo. Mesmo representações “óbvias” como as usadas pelos Reis de Leão (De prata um leão de púrpura) viram contestado o seu estatuto falante. Alguns autores afirmam que este leão pode muito bem representar a força e o carácter do rei, em vez de um trocadilho que lembre o nome do seu reino: Llion llion (leo. leão). É matéria de interpretação pessoal, que coincidirá ou não com as intenções primitivas.

É perfeitamente admissível que as cores sejam falantes, mesmo sob um ponto de vista tradicional. Aparecem normalmente na forma de esmaltes plenos como em Rossi ~ Rossi (ita. vermelhos), onde o vermelho que ocupa todo o campo do escudo transforma esta evidência em inevitável explicação. A metodologia parofónica permite um domínio de interpretações mais completo, explicando mesmo pequenos pormenores cromáticos, de outra forma menosprezados. Por outro lado, o que parece ser um esmalte natural e desenxabido poderá esconder um significado surpreendente e inesperado, como o campo azul usado nas armas dos reis de França. Naturalmente, a maior parte das figurações heráldicas apresenta as suas cores naturais.

 

Leões Azuis e Águias Púrpura

O que torna  algo irrazoável a negação deste tipo de fenómeno é que as armas falantes são percebidas como uma manifestação heráldica geral e reconhecida. Portanto, se ocorre noutras ocasiões deveria também ocorrer neste caso particular. Pode dizer-se o mesmo acerca da parofonia, com a diferença de que aqui o universo alcançado é bem maior. Poderá influenciar cada um dos aspectos do brasonamento: figurações, separações, atitudes, esmaltes, etc.

Não resta praticamente nada para uma escolha arbitrária, cada traço heráldico parece propenso a uma intenção parofónica deliberada ou resultar de uma imanência dos outros elementos já representados. Mas se por acaso encontrarem-se leões azuis, águias púrpura ou céus verdes, acreditem, haverá aí mais do que uma simples arbitrariedade estética. O homem medieval não era tolo ou ingénuo, como alguns poderão comodamente pensar, talvez a justificar a insanidade e insensibilidade dos nossos tempos.

 

A Cruz Dourada

Devemos abandonar as nossas generalizações e voltar à cruz e aves de Santo Eduardo. Notámos anteriormente que o esmalte dourado poderia ser o mais apropriado para a nossa cruz. Madeira, ouro, latão ou bronze conviriam perfeitamente ao artefacto e poderiam de facto ser a motivação por detrás das cores. Mas antes já tínhamos proposto que os quatro lises nos braços da cruz  seriam os mesmos presentes na Coroa de Santo Eduardo. Não se poderia assumir que o resto do material da cruz fosse também em ouro, afinal um tipo de amarelo - caso encerrado - ou talvez não? Sim e não. Aceitamos que a cruz que aparece nas armas de Santo Eduardo seja feita em ouro. Não devemos, contudo, recusar outras contribuições parofónicas que abranjam esta propriedade da cruz heráldica desde que não haja conflito. Trata-se precisamente disso, o que explicitaremos mais abaixo.

 

Da Cor das Andorinhas

Depois destas considerações sobre a cruz volvemos a nossa atenção para os pássaros. As merletas heráldicas usadas em Inglaterra inspiraram-se nas andorinhas, uma ave gregária bem conhecida, com um bico pequeno e patas diminutas, de tal modo que quase não as vemos, seja na vida real seja nos desenhos simplificados da heráldica. Não existem contudo andorinhas amarelas e mesmo pássaros inteiramente dessa cor são difíceis de encontrar na Europa.

O facto de que as merletas representam pássaros em geral não ajuda muito pois aparecem em variados esmaltes. As armas de fantasia de Sussex que incluem seis merletas - três, dois e um - aparecem em documentos tardios e é difícil chegar-se a qualquer conclusão formal a partir daí. Parecem inspirarem-se nas armas estudadas neste artigo e mencionamos a parofonia Sussex ~ Suos (lat. seus) sex (lat. seis), que poderia referir alguém em particular. Talvez o autor não conhecesse ou ignorasse a parofonia - Seint ~ Cinc - aplicada a Eduardo e por conveniência admitisse seis elementos no bando de aves, usando o Latim como instrumento arcaizante. Se aceitarmos esta inspiração, as armas poderão datar-se como posteriores ao século XIV. Os restantes aspectos desta representação devem deixar-se para uma pesquisa posterior.

Na generalidade poderíamos admitir que quaisquer andorinhas castanhas pudessem ser transformadas em ouro, uma suposição pertinente, ou que o brilho da cruz em ouro se reflectisse nas merletas. Também poderia ser entendido por alguns como derivado de um nimbo cruciforme formado pelo aro da moeda e pela cruz, o todo a espalhar algo da claridade para as pombas; mas não existem cores nas moedas e Eduardo não era ainda reconhecido como santo.

 

O Rei em Winchester

Deixem-nos ainda fazer mais uma observação sobre a metodologia parofónica. A vasta maioria das metonímias do referente são de carácter geográfico e ainda não aplicámos nenhuma. Por quê será? Provavelmente porque estas armas baseavam-se numa representação numismática e que estas demandassem uma inspiração distinta. Lembramos que as três metonímias já encontradas baseavam-se na antroponímia - Edouard Et due harde - e na condição de Eduardo - Seint Cinc e C(e)roi Crois. Isso é decididamente surpreendente se formos compará-las com as representações típicas e ainda mais seria se não existissem parofonias suplementares e consequentemente quaisquer metonímias geográficas.

A capital de Eduardo o Confessor era Winchester e apenas mais tarde com a conquista normanda iria transferir-se para Londres. Já vimos nas armas de Sagremor - Aquincenses Ac quini sentes - que estes demónimos podem ter um papel importante para traduzir o referente em imagens. Esse também é o caso para o Rei Eduardo, não na forma plural usada para o cavaleiro húngaro imaginário mas apenas como mais uma circunstância da sua vida: alguém que viveu em Winchester. Note-se que Eduardo não nasceu ali; a parofonia está ligada à cidade como capital do Reino, não ao local de nascimento do Rei.

A parofonia constrói-se usando j' Wincestrin (ano. eu Winchestrense) ~ juints cestrins (ano. juntos amarelo-limão). Não foi possível encontrar a palavra anglo-normanda específica Wincestrin ou, já agora, qualquer outra, para os habitantes de Winchester. É possível, porém, achar Wincestre para o nome da cidade e compará-la então com outros gentílicos conhecidos, como Parisin, inferindo-se as conclusões necessárias. “Juntos” refere-se a qualquer coisa que possa ser enumerada dentro do escudo, excluindo-se obviamente o campo por incontável e ademais necessário ao contraste.

 

Um Tom Francês

Repare-se ainda que Je (ano. Eu) transforma-se em J' perante sons vocálicos mas mesmo ao preceder consoantes na prática oral e além disso que os plurais terminados em “s” são mudos. A pronúncia da primeira sílaba de Wincestrin poderia muito bem ser [win] em vez de [wẼ], de acordo com a natureza local da palavra. O índice de discrição seria alterado ligeiramente de k = 0,0 para k = 0,30, nada de alarmante, mas preferimos acompanhar o óbvio desígnio de uniformização sonora, exagerando talvez o entusiasmo referente aos aspectos francófonos do anglo-normando.

 

Metonímias

Tanto o denominante como o designante vêem o seu significado restringido pela metonimização. O primeiro através de duas metonímias convergentes:

Eu > brasão > armigerado > Eduardo

Winchestrense > vive em Winchester > o rei > Eduardo

O segundo como duas metonímias simples distintas:

juntos > todos > figurações > cruz e merletas

amarelo-limão > amarelado > ouro

 

Santas Aves

Poderíamos ter classificado a última metonímia como uma sublimação, em que o tom dourado reflectisse a escolha mais lisonjeira dentre todos os amarelos possíveis. Mas veja-se que já temos um pretexto cromático baseado nas flores-de-lis e que além disso um qualquer amarelo que aparecesse seria inevitavelmente descrito como ouro. Daí que a cor da cruz e das merletas deva ser entendida não como amarelo-limão mas como ouro, transformado e descrito pelas práticas do brasonamento. Isso não acontecerá sempre, algumas figurações necessitam de manter a sua identidade amarela de modo a garantir a consistência. As metonimizações cromáticas não ocorrem então, contradizendo a sua descrição no brasonamento, uma linguagem convencionalizada.

Necessitamos ainda de justificar o porquê das aves amarelas no enredo dos traços heráldicos das armas. Parece insuficiente afirmar que as cores provêem da parofonia amarelo-limão. É esta coerência que mantém o todo visual unido e ajuda a afirmar que seria muito difícil que proviesse de qualquer outro motivo que não fosse a intenção. Cestrin está frequentemente associado com a descrição de pedras preciosas. Tudo o que poderíamos imaginar naquele período seriam algumas pedras engastadas na cruz, o que não é o caso. Adicionalmente, não havia capacidade técnica para lapidar as gemas na forma da cruz ou das merletas por inteiro.

Deveremos buscar outra explicação. Voltemos atrás até à identificação das cinco merletas com a santidade do Rei Eduardo através do seu número, Seint ~ Cinc e respectiva condição de bando, Edouard ~ Et due harde. É legítimo pensar que a cor pudesse estar associada com essa condição. Não deveriam reflectir, portanto, o brilho da cruz em ouro, como suposto anteriormente, mas um resplendor interno de santidade.

 

O Resplendor Interno

Este resplendor é representado convencionalmente por um halo ao redor da cabeça dos santos quando se desenham figuras humanas. No que se refere a pássaros, a pomba do Espírito Santo surge de hábito como inteiramente branca com um resplendor amarelado à sua volta que emerge do interior. Seremos informados no quinto nível semântico de que o esmalte azul é “bento” assim não haveria qualquer vantagem semântica em diluir o campo com um halo. Pareceria de qualquer maneira uma técnica bizarra para um brasonamento deste período. O que aconteceu é que o autor do brasão simplificou o halo resplandecente através do esmalte das merletas, transformado a partir do seu brilho interior amarelado. De um modo similar, uma estrela é encoberta por uma nuvem branca e altera o seu esmalte de ouro para negro nas armas de Sagremor. Uma técnica realista teria colorido toda a nuvem de branco, mas deste modo não explicitaria o astro ainda escondido, ignorando a sua presença. Tudo o que precisamos para o enredo heráldico é uma construção credível, que possa “justificar” os aspectos determinativos da parofonia a montante, mesmo se insólitos, uma vez que derivam do acaso.

 

 Eduardo o Confessor - Cruz e cinco Merletas em ouro

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia (IV)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Eduardo o Confessor
Demónimo M Winchestrense
Língua de Conquista V Anglo-Normando
Denominante A J' Wincestrin
Metonímia convergente S Eu > brasão > armigerado > Eduardo
S Winchestrense > vive em Winchester > rei > Eduardo
Grafemização A  J'  |    |  W  |  I  |  N  |  C  |  E  |  S  |  T  |  R  |  I  |  N 
Fonemização denominante A Z  |  w  |  Ẽ  |  s  |  E  |  s  |  t |  R\  |  Ẽ
Emparelhamento A Z  |  w  |  Ẽ  |  s  |  E  |  s  |  t |  R\  |  Ẽ
A Z  |  w  |  Ẽ  |  s  |  E  |  s  |  t |  R\  |  Ẽ
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Índice de discrição A k = 0,0
Fonemização designante A Z | w | Ẽ | s | E | s | t | R\ | Ẽ
Grafemização A J | U | I | N | T | S | | C | E | S | T | R | I | N | S
Designante A juints cestrins
Coloração E amarelo-limão
Monossemia simples S ouro
S amarelo-limão
Esmalte H De azul
Número H uma
Figuração H cruz
Aspecto H florenciada
Esmalte H amarelo-limão em ouro
Localização H acantonada de
Número H quatro
Figuração H merletas
Conectivo H e
Número H mais outra
Localização H em ponta
Número H todas
Metonímia simples S juntos > todos > figurações > cruz e merletas
Metonímia simples, Redundância S amarelo-limão > amarelado > ouro
Esmalte H amarelo-limão do mesmo
Imanência, Redundância C ouro (flores-de-lis)
Contraste C azul

(próximo artigo nesta série V/VI)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 21:55
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