Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Portingale: Dados e Pintas

 

Estas armas aparecem de início no Herald's Roll, armorial inglês do fim do século XIII, revelando alguns aspectos interessantes para a metodologia parofónica da semiótica heráldica. Apenas na imaginação representavam os soberanos respectivos e haveria algum relaxamento das regras habituais, optando-se por soluções de maior conveniência ou facilidade. Uma das simplificações é o uso da própria língua do fantasista. O método acciona a sequência recorrente (↓) que transforma palavras em imagens: Referente (R), Metonímia do Referente (M), Verbalização (V), Acomodação (A), Sematização (S), Especificação (E), Traço Heráldico (H) e Complementação (C), mostrada na tabela anexa.

A fundamentação da simbologia visual para todas as armas de fantasia é simplificada por meio de uma metonímia, quase sempre associada à denominação do território, conservando, porém, a prática relativa ao referente. Aqui o denominante é Portingal ou Portingale, usado desde o século XII descrevendo Portugal por influência das línguas aparentadas com o francês, nomeadamente o anglo-normando. Usamos a codificação X-SAMPA nas correspondências fonéticas entre o denominante e o designante, de modo a garantir a legibilidade sem comprometer o rigor. O conjunto de fonemas a comparar são iguais - Portingale ~ porte ingal - ocasionando um índice de discrição nulo. Poderíamos classificá-las como armas perfeitamente falantes.

O designante "porte ingal" é sematizado na ideia de "traz igual", ou seja, "mostra as mesmas quantidades". A metonímia simples transforma o conceito abrangente "quantidades" numa exemplificação restrita: os pontos das pintas nas três faces visíveis. Ademais, "igual" não tipifica explicitamente uma qualificação, apesar de o ser; a especificação numérica em que se transforma é significativa na heráldica. Subentenderá duas ou mais unidades do mesmo, a surgir depois no brasonamento: "cada um com". Outra solução usando "aleae" (lat. dados) parece pouco razoável, o latim é raro nas armas de fantasia parofónicas. Criaria também dificuldades que se afiguram insuperáveis na explicação da metade anterior do designante.

A acção tácita em "traz" pode interpretar-se como a vocação do escudo para mostrar figurações dentro de si, mera redundância, sem efeito discernível no traço heráldico. Numa segunda interpretação as próprias figurações, os dados, "trazem" outras, as pintas. Ocorre, portanto, a confluência desta última acepção de "traz" com "igual", metonímia composta porque os traços correspondentes das faces e das pintas reforçam o seu sentido imagético quando estão juntos.

Mas os dados não encerram em si a ideia isolada do designante. O esmalte branco, a existência, disposição e cor das pintas são elementos imanentes que adivinhamos decorrer da natureza do objecto. A razão para empregarem-se três deles talvez estivesse ligada à simplificação do desenho, mantendo a regra da boa ocupação do espaço disponível. Não menosprezaremos o papel que possa ter tido algum jogo em voga ou a preferência estético-convencional do autor do manuscrito, como para o Rei de Castela.

Os traços heráldicos regem-se de hábito pelo brasonamento, salvo quando a prática da arte ou a natureza das coisas convencionem características entendidas por omissão. Deste modo, é aceitável orientarmos as faces dos dados pela borda superior do escudo, se tal não for referido expressamente. Ou que se exponha apenas uma face por dado, decorrendo da descrição do conteúdo: "cada um com cinco pintas", sem menção às outras faces. O Llibre dels Privilegis de Mallorca do princípio do século XIV mostra cinco dados 2-1-2, em ressonância, assim parece, com os cinco escudetes portugueses. O Grimaldi's Roll, armorial contemporâneo deste, apresenta o campo em azul com seis, cinco e quatro pintas nas faces visíveis de cada cubo. Se afastarmos a possível deturpação das armas de fantasia mais antigas podemos pensar na aproximação do esmalte do escudo ao dos escudetes azuis de Portugal.

A escolha do número de pintas poderá ser imputada ao preenchimento mais eficiente do espaço. Seis é o máximo admissível para um dado e, além disso, o armorial surge muito antes da adopção dos cinco besantes de prata em aspa no escudo nacional. Contudo, a disposição tradicional alternada em quincôncio dos onze besantes remete à sua forma mais simples, a quina. Caso tenham sido influenciados pelo brasão português, satisfariam simultaneamente a lógica destas e do artefacto.

Uma outra questão é saber porquê não se terão utilizado as armas verdadeiras do Rei de Portugal. O escudo português seria desconhecido pelo autor? Nada afiançamos mas a resposta parece afirmativa, pelo menos quanto ao conhecimento dos seus pormenores exactos. Exemplos de divergência absoluta podem ser encontrados no mesmo pergaminho: os reis da Dinamarca e da Noruega; para o rei de Castela encontramos três castelos em vez de um. Também não ocorria nenhum estado de beligerância que nos fizesse suspeitar do desvirtuamento propositado.

O campo vermelho ajuda a organizar e completar a composição. Uma mesa de jogo feita em madeira poderia ser o fundo adequado ao cenário lúdico, já que os três dados são vistos de cima. Vários exemplos do nosso corpus apontam para a representação deste material em tons amarelos ou avermelhados, não fugindo demasiado à verdade; falta o castanho no reportório habitual dos brasões. Impedido o primeiro esmalte por menor contraste com o branco resta o segundo.

O fenómeno de complementação manifesta-se de várias formas. Preenche as lacunas deixadas pelos traços heráldicos de carácter semântico e pelo brasonamento mas, de ordinário, está implícito. Encontramos contrastes, imitações, adereços, imanências, simetrias, preenchimentos, centralidades, simplificações e redundâncias. Estas últimas nunca são referidas ao brasonar, por desnecessário.

Ver sobre este assunto:

ANOH - The Anglo-Norman On-Line Hub - Acedido a 13 de Dezembro de 2011 disponível em: <http://www.anglo-norman.net>.

TIMMS, B. - Heraldry - 2011 : Acedido a 13 de Dezembro de 2011 disponível em: <http://www.briantimms.net>.

 

 


Portugal - Armas de Fantasia II

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Rei de Portugal
Territorial M Portugal
Língua de Fantasia V Portingale (anglo-normando)
Denominante A Portingale
Grafemização A P O R T I N G A L E  
Fonemização denominante A p O R t G a l  
Emparelhamento A p O R t G a l      
A p O R t G a l      
Coeficiente de transposição A 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0      
Coeficiente de carácter A 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0      
Coeficiente de posição A 1,5 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 0,5      
Parcelas A 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0      
Índice de discrição A 0,0      
Fonemização designante A p O R t G a l
Grafemização A P O R T E _ I N G A L
Designante A porte   ingal
Monossemia simples S traz   igual
S mostra as mesmas quantidades
Acção + Quantidade E exibir + iguais
Redundância C traz = brasona
Esmalte H avermelhado De vermelho
Contraste C prata
Adereço C mesa de jogo
Número H 3 três
Figuração H dado dados
Simplificação C = face pontuável
Esmalte H esbranquiçado de prata
Imanência C dado
Orientação H horizontal (direitos)
Simplificação C = borda superior
Disposição H 2, 1 (em contra-roquete)
Preenchimento C área do escudo
Simetria C eixo do escudo
Centralidade C coração do escudo
Metonímia composta 1/2 S traz > área > face > dado
Localização H pintas nas faces cada um com
Metonímia composta 2/2 S iguais > faces > pintas
Número H 5 cinco
Metonímia simples S quantidade > pontos > dado > pintas
Figuração H pinta pintas
Imanência C dado
Esmalte H escuro (negras)
Contraste C prata
Imanência C dado
Disposição H 2, 1, 2 (postas em sautor)
Preenchimento C (quincôncio)
Imitação C (besantes)
Imanência C dado

 (próxima análise neste blog aqui)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 21:43
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