Quinta-feira, 19 de Julho de 2012

Eduardo o Confessor: Cruz

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia

 

Armas de Santo Eduardo o Confessor

Sem dúvida, este será um dos mais respeitados e difundidos exemplares dentre as armas de fantasia, seja pela figura mítica do patrono de Inglaterra que precedeu a São Jorge, seja pelo uso em armas verdadeiras, seja pela sobrevivência de artefactos que aludem ao seu nome como o trono, o ceptro e a coroa real dos monarcas ingleses, seja pela própria consideração que os assuntos heráldicos tiveram e continuam a ter nas Ilhas Britânicas. Sinal desta importância é o aparente cuidado posto na concepção das armas que lhe são atribuídas. Totaliza seis níveis semânticos, coisa rara na parofonia heráldica, cada um com a sua metonimização para o mesmo referente: Eduardo o Confessor. Aparecem pelo fim do século XIV integrando as armas de Ricardo II, possivelmente inspiradas numa moeda cunhada ao tempo do Rei Santo[1].

 

A Moeda e a Cruz

Pela primeira vez surge-nos a própria condição do armigerado - rei - como metonímia do referente. A causa deverá ser, por um lado, a importância das responsabilidades assumidas por Eduardo, por outro a provável intencionalidade de cópia, adaptada da numária deste soberano. Não é possível garantir absolutamente que a peça já fosse ela própria falante, como temos observado em outros exemplares pré-heráldicos da numismática ou da sigilografia[2].

Tudo indica que sim: a estreiteza das hastes que é repetida nas armas, o acrescento dos florões, específico à linguagem heráldica, a diversidade das figurações ornitológicas e o facto de serem apenas quatro inicialmente. Estas complementaridades ficarão mais claras nos artigos subsequentes. Aceitando-se a suposição devemos inferir o uso do francês arcaico na parofonia das moedas, o que não será demasiado difícil sabendo-se que Eduardo viveu muito tempo na Normandia, tendo levado naturais dali para Inglaterra; a sua própria mãe era normanda[3].

De facto, não se utilizou como antes o latim na verbalização deste plano semântico mas o francês ou alternativamente o anglo-normando, caso a cópia das moedas não possa ser aceite, ao contrário do que acreditamos, em qualquer das hipóteses a diferença será insignificante. Decorre da nossa proposta que a verbalização fez-se numa língua de influência, ainda não falada na corte, como aconteceu mais tarde: Ce roi (fra. este rei) ~ Crois (fra. cruz)[4].

 

A Cruz do Rei

Ambos os termos em confronto, Ce roi e Crois, produzem uma homofonia absoluta após providencial intervenção metonímica, ocasionando um índice de discrição nulo. A alteração do fonema /s/ em /k/ processa-se segundo a metonimização divergente:

ce (roi) > ce (este) > [se]

c(roi) < c (letra cê) < [se].

A metonímia é divergente porque, a partir de um mesmo elemento - a fonemização em [se] da palavra ce e da letra cê - fornecem-se duas interpretações distintas. Ambas estão no denominante, com /s/ a montante e /k/ a jusante, produzindo artificialmente a palavra croi, desprovida de sentido, útil apenas no emparelhamento fonético com crois. Note-se que a metonimização dos fonemas ocorre na etapa de sematização por tratar-se de uma mudança semântica e não na fase de acomodação, fundamentalmente fonética.

Ce (fra. este) cumpre uma função importante na construção da parofonia mas apenas estabelece uma monossemia elementar. Refere redundantemente que este rei é o rei de que se fala e que será representado nas armas parofonizadas. A sematização da cruz é ainda mais simples porque não há que usar qualquer artifício, a cruz do designante produz a cruz do traço heráldico, ponto final.

É perfeitamente cabível uma cruz feita de ouro, bronze, madeira ou qualquer matéria que lhe dê a cor amarelada. De facto a atribuição dos esmaltes, especialmente nas armas de fantasia, sintoniza-se amiúde com um material aceitável na figuração, com a descrição habitual “de sua cor” nem sempre usada. Entretanto, neste caso particular as cromatizações resultam de dois planos semânticos específicos e distintos, um para o azul do campo e outro para o ouro dos móveis, como veremos mais tarde. Razão de apresentamos apenas o contorno da cruz na imagem ilustrativa.

Os complementos redundantes são os de costume excepto no que toca à orientação da cruz. Exaustivamente conformada pela nossa cultura é bem evidente que uma cruz de sentido genérico só poderá estar com os braços paralelos ao horizonte visual. Não é assim na cruz de Santo André mas torna-se necessário especificá-la pelo nome. Trata-se, portanto, de uma imanência cultural da cruz, embebida no seu traço heráldico de orientação e na própria palavra.

 

Os Florões e a Definição de Aspecto

Seria ainda necessário justificar a presença dos lises nas extremidades da cruz. Há uma enorme variedade de cruzes na heráldica, diferenciáveis pelas espessuras, formas, número e extensão dos braços mas, sobretudo, pelo arremate das extremidades. Será possível que cada formato possa estar ligado a uma justificação semântica através do referente?

Não podemos responder à pergunta, apenas nos ocuparemos deste exemplo por agora; o conjunto das propostas que formos apresentando no futuro encarregar-se-á de delimitar as atribuições respectivas. Os argumentos nem sempre radicarão num desígnio semântico absoluto, poderão tratar-se de complementações que, fugindo ao enfeite inconsequente liguem-se, ainda que de modo débil, ao enredo heráldico.

Deveremos introduzir aqui a definição de aspecto, conceito sempre ligado às figurações, especialmente as geométricas. É muito semelhante à noção clássica de atitude que descreve a postura dos animais. O aspecto é a parte de uma figuração que se diferencia caracteristicamente de outras figurações semelhantes por meio de um detalhe formal. Não sendo uma figuração independente em si mesma, o aspecto ajuda a identificar vários tipos ou modelizações de um mesmo desenho. O endentado e o ondado das faixas, os palhetões e as argolas das chaves, as pétalas e os espinhos das flores, as orelhas e as nervuras das vieiras exemplificarão suficientemente.

 

A Jóia da Coroa

Voltando à necessidade da nossa justificativa, apesar de roi designar textualmente o rei, a associação deste conceito através da expressão visual de uma cruz grega simples não é de nenhum modo aparente. De mais a mais, na maior parte das parofonizações reais que estudámos verificou-se esse modo de analogia heterogénea entre a linguagem e a imagem. A maneira mais fácil de designar um rei apenas por um objecto é o uso de uma coroa, mais raro será ver o traço de aspecto numa cruz diferenciado por uma ou mais coroas.

Singularmente, para o rei de que nos ocupamos é possível encontrar uma peça histórica de relevo: a Coroa de Santo Eduardo[5]. O artefacto actual é uma jóia da Coroa Britânica, cópia de outra que existiu antes, esta talvez usada pelo referente. Se assim aconteceu de facto, não é demasiado importante, mas sim que o autor das armas pudesse estar convencido da sua autenticidade ou representatividade. Como a Coroa de Santo Eduardo apresenta quatro florões na sua circunferência, cada um deles deve ter sido incorporado às hastes da cruz heráldica obedecendo à metonimização:

rei > coroa > Coroa de Santo Eduardo > quatro florões

rei > Eduardo > Coroa de Santo Eduardo > quatro florões.

A metonímia é convergente, ou seja, sendo composta, ambas as linhas de contiguidade semântica vão ter ao mesmo conceito. Isso também acontece no estudo Salernum ~ Sal eremum relativamente ao sol.

Por outro lado, os florões são elementos habituais e característicos das coroas e mesmo que não existisse o artefacto seria possível fazer a associação; decerto com menor brilho expressivo. A figuração que estudamos é igualmente apresentada sob a forma de cruz patonce, com as hastes concavadas a crescer para o exterior, os lises mais curtos e as pétalas externas em concordância com o perímetro. Não vemos razão para alterar o nosso raciocínio mas comentamos que nesta circunstância poderíamos considerar cada inflorescência como uma coroa muito simplificada, para além dos mais óbvios florões.

[1] HERALDIC TIMES - The Arms of Edward the Confessor - s.d. : Acedido a 18 de Julho de 2012, http://heraldictimes.org/2010/12/10/the-arms-of-edward-the-confessor (inacessível).

[2] MICHELSEN, Mike - The Coat of Arms of Edward the Confessor - Mikes passing Thoughts Blog - 2010 : Acedido a 18 de Julho de 2012, disponível aqui.

[3] LUARD, Henry H. (ed.) - Lives of Edward the Confessor. La Estoire de Seint Aedward le Rei. Vita Beati Edvardi Regis et Confessoris. Vita Aeduuardi Regis qui apud Westmonasterium requiescit - Londres: Longman, 1858 : Acedido a 18 de Julho de 2012, disponível aqui.

[4] GODEFROY, Frédéric - Dictionnaire de l'Ancienne Langue Française et de tous ses Dialectes du IXème au XVème Siècle - Paris, 1880-1895 : Acedido a 18 de Julho de 2012, disponível aqui.

[5] SIDDONS, Michael - Regalia et Cérémonies du Royaume-Uni - Bulletin du Centre de Recherche du Château de Versailles, nº 2 - 2005 : Acedido a 18 de Julho de 2012, disponível aqui.

 

Eduardo o Confessor - Cruz

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia (I)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Eduardo o Confessor
Condição M Rei
Língua de Influência V Francês
Denominante A ce roi
Redundância S ce
S este aqui representado
Monossemia simples S este rei
S este rei aqui representado
Metonímia divergente S ce (roi) > ce (este) > [se]
S c(roi) < c (letra cê) < [se]
Grafemização A  C  |  R  |  O  |  I 
Fonemização denominante A k  |  R  |  w  |  a 
Emparelhamento A k  |  R  |  w  |  a 
A k  |  R  |  w  |  a 
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Índice de discrição A k = 0,0
Fonemização designante A k | R | w | a
Grafemização A C | R | O | I | S
Designante A crois
Artefacto E cruz
Monossemia simples S cruz
S cruz
Esmalte H De azul
Número H 1 uma
Figuração H cruz cruz
Simetria C radial
Orientação C imanência
Centralidade C abismo
Metonímia convergente S rei > coroa > Coroa de S. Eduardo > 4 florões
S rei > Eduardo > Coroa de S. Eduardo > 4 florões
Aspecto H rei florenciada
Localização C arrematam cada haste da cruz
Orientação C o pé para o interior
Simetria C = cruz
Esmalte H em ouro
Localização H acantonada de
Número H quatro
Figuração H merletas
Conectivo H e
Número H mais outra
Localização H em ponta
Número H todas
Esmalte H do mesmo

(próximo artigo nesta série II/VI)

 


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Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

Sagremor: Esmalte Vermelho

Sagremor - Armas de Fantasia

 

Terminamos o estudo pelo primeiro nível semântico por expor-se melhor nesta ordem a organização das armas de Sagremor. Isso não quer dizer que o autor do brasão tenha adoptado uma qualquer sequência predeterminada; pelo contrário, deve ter ensaiado várias possibilidades antes de dar o trabalho por findo. A parofonia é descrita por Ungaria (lat. Hungria) ~ Ungo (lat. unto) area (lat. área), talvez a mais evidente de todas, dado o cognome aposto a Sagremor: o Húngaro. Os seus resultados visuais, muito singelos, diríamos quase exigirem outros componentes que viessem a preencher a excessiva simplicidade de um escudo pleno em vermelho. Convém acrescentar que como nos antecedentes, mantém-se a razoabilidade de um índice de discrição baixo: k = 0,25 e que ao estimar este indicador recorremos à ditongação de oa em ungo area, a emparelhar com Ungaria para alterar-se em Ungoarea.

O tema da parofonia parece afastar-se dos hábitos adquiridos em Aquincenses ~ Ac quini sentes e em Danubius ~ Da nubis ao compor indirectamente o “céu” suposto no pano de fundo das estrelas e da nuvem. Este afastamento é verdadeiro quanto ao modo de sematização da parofonia mas não quanto à representação em si mesma. É perfeitamente possível um céu vermelho à tarde ou pela manhã, admitindo ainda nestas ocasiões a visibilidade da nuvem e das estrelas ou dos planetas mais brilhantes. Contudo, ungo vai aplicar-se primariamente sobre a superfície do escudo especificada em area e apenas depois sobre os céus, como consequência natural do conjunto imagético que se pressupõe coerente. A sematização estabelece a metonímia: área > campo > campo do escudo > escudo. Encontramos um paralelo da unção dos escudos neste trecho do Segundo Livro de Samuel: ... O escudo de Saul não foi ungido com óleo, mas com o sangue dos feridos e a gordura dos guerreiros ...[1]. Tal como nos escudos medievais feitos de madeira e recobertos de couro a boa manutenção exigia uma protecção periódica. Não será, todavia, o óleo a colorir o artefacto de defesa usado por Sagremor, mas a ideia implícita de que era feito ou recoberto de couro, logo avermelhado ou acastanhado, colorações passíveis de inspirar o esmalte vermelho na representação do escudo heráldico.

A conjugação cromática aparenta ser arbitrária mas as dúvidas desvanecem-se ao examinarmos em pormenor a análise já efectuada. A seleccionarem-se convenientemente cores naturais, as estrelas fora do cantão serão amarelas, brancas ou azuis. Do mesmo modo a nuvem poderia ser branca ou negra, enquanto que o escudo de couro tratado pelo tanino apenas admitiria o vermelho. Quanto à estrela encoberta consentiria o negro ou eventualmente o branco, como descoloração do outro esmalte estelar que representasse a luz. Ficamos com as seguintes possibilidades, dispondo as cores pela ordem: estrelas, campo, cantão, estrela do cantão.

Azul + Vermelho + Negro + Prata (não) 
Azul + Vermelho + Negro + Negro (não) 
Azul + Vermelho + Prata + Prata (não) 
Azul + Vermelho + Prata + Negro (não) 
Ouro + Vermelho + Negro + Prata (não) 
Ouro + Vermelho + Negro + Negro (não) 
Ouro + Vermelho + Prata + Prata (não) 
Ouro + Vermelho + Prata + Negro (sim) 
Prata + Vermelho + Negro + Prata (não) 
Prata + Vermelho + Negro + Negro (não) 
Prata + Vermelho + Prata + Prata (não) 
Prata + Vermelho + Prata + Negro (sim) 

É possível observar que das doze hipóteses apenas duas são inteiramente admissíveis. Grande parte das opções é rejeitada pela aplicação da lei dos contrastes. Duas estarão no limite da admissibilidade ao incluir uma nuvem negra, que estimamos não fosse de primeira escolha, além de figurar o esmalte vermelho vizinho ao negro, apesar de por vezes encontrarem-se juntos na heráldica. Finalmente, restam dois arranjos bem-sucedidos dos quais um repete o esmalte do par de estrelas iguais na nuvem, proposta mais pobre do que a oitava combinação, coincidente com a escolha do brasão de Sagremor, o que não nos surpreende. 

Poderíamos ser tentados a associar ungo com a unção das sagrações reais, por Sagremor descender do rei da Hungria e da filha do imperador de Constantinopla. Ainda assim, a experiência nos aconselha a não confundir os planos semânticos da parofonia com os planos estritamente biográficos, não se exceptuando os fantasiosos. A obtenção do desenho está isolada de outros relacionamentos que não os estabelecidos pela metonimização do referente. Mesmo dando-se o caso da possibilidade de escolha entre vários traços heráldicos, temos observado a preferência de acompanhamento dos estilos visuais de cada época, ao invés de escolhas baseadas no percurso particular do representado. Tal porém já não acontece nas armas alusivas.

Apesar disso considerou-se o próprio nome de Sagremor, com uma solução do tipo Sagremor ~ Sacre (fra. sagração) en or (fra. em ouro), seguindo-se contudo os procedimentos habituais. Assim a unção, ao menos desta vez, ligar-se-ia à entronização dos seus ascendentes e imaginaríamos as estrelas como manchas de óleo sobre as vestes régias em vermelho, cor já usada nas cerimónias medievais. O componente en or diria respeito aos utensílios necessários à guarda e aplicação do óleo, também referenciáveis pela história. Esta solução entra em conflito com o plano semântico apresentado anteriormente, que favorece ungo na forma de acção utilitária. Para mais, teríamos de explicar o cantão e a estrela negra, dificuldade de resolução improvável. Preferimos imaginar aqui uma possível interpretação textual, redundante com o que já se propôs, mas de nenhum modo ligada à proposta semântica visual. Resta-nos aguardar por outros estudos sobre os Cavaleiros da Távola Redonda para decidir sobre a existência de algum padrão comum quanto ao uso da antroponímia dos armigerados.

[1] 2 Sm 1, 21-22.

 

 


Sagremor - Armas de Fantasia (I)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Sagremor
Território M Hungria
Língua de Fantasia V Ungaria (latim)
Denominante A Ungaria
Grafemização A U  |  N  |  G  |  A  |  R  |  I  |  A
Fonemização denominante A u  |  N  |  G  |  a  |  4  |  i  |  a
Emparelhamento A u  |  N  |  G  |  a  |  4  |  i  |  a
A u  | N |  G  | oa |  4  |  e  |  a
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 1,0 | 0,0 | 1,0 | 0,0
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Índice de discrição A k = 0,25
Fonemização designante A u | N | G | o |   | a | 4 | e | a
Grafemização A U | N | G | O |   | A | R | E | A
Designante A ungo | area
Acção + Geometria E unto + área
Monossemia simples S vermelho
S unto o escudo
Metonímia simples S área > campo > campo do escudo > escudo
Esmalte H avermelhado De vermelho
Imanência C couro
Contraste C ouro, prata
Número H um
Separação H cantão
Esmalte H de prata
Conectivo H e
Número H três
Figuração H estrelas de cinco pontas
Número H duas
Esmalte H de ouro
Conectivo H e
Número H uma
Esmalte H de negro
Localização H no cantão

(próxima análise neste blog aqui)



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Sábado, 7 de Julho de 2012

Sagremor: Cantão de Prata

Sagremor - Armas de Fantasia

 

Continuaremos a caracterizar as armas de Sagremor neste terceiro plano semântico. Estabelecidas as coordenadas húngaras das metonímias referentes, é natural que se continue pelo mesmo tom, obedecendo à restrita tipologia definida nos quase dois mil traços heráldicos já investigados. Para Sagremor encontrámos num  primeiro nível semântico a metonimização do seu referente em território, em gentílico no segundo e finalmente em hidrónimo no que iremos desenvolver a seguir.

Continuando com a expressão verbalizante em latim, achamo-nos desta vez perante o majestoso rio de Budapeste, o denominante Danubius (lat. Danúbio). Resulta num índice de discrição bastante favorável, k = 0,14, parófono ao designante da (lat. diz) nubis (lat. nuvem). Ressaltamos tomar-se iu em Danubius como ditongo, porque este i é breve, figurando assim numa única célula a emparelhar com o outro i de nubis. Note-se que a contagem do número máximo de fonemas alterou-se de oito para sete por este motivo. O verbo do (lat. dar) possui um grande número de acepções, das quais algumas poderiam ser usadas no contexto. Pensamos, contudo, que a forma imperativa da segunda pessoa é a mais adequada, com o sentido de “Diz!” ou Explica!.

Danubius ~ Da nubis produz uma monossemia simples, já que é responsável pelo cantão em prata. É bem verdade que a alteração do esmalte da estrela correspondente de ouro em negro também lhe será imputada, mas como consequência secundária da sematização dos traços heráldicos pré-definidos. Como no nível precedente há metonímia redundante: diz não está associado a qualquer traço heráldico mas à própria função parofónica do escudo pelas contiguidades diz > falante > armas falantes, o que de facto são. O segundo termo, nubis, não deixa qualquer lugar a dúvidas, seja pelo sentido, seja pela complementaridade ao que se tinha já averiguado. Definido que estava o tema estelar, nada mais apropriado do que este fenómeno meteorológico para conjugar uma belíssima ordenação heráldica.

A nuvem é branca, convenientemente, e esconde a luz ao “passar” em frente a uma das estrelas, transformando o seu esmalte dourado. Assinalamos, pois, o fenómeno sematizante de oposição entre a luz e a obscuridade. Ademais, a estrela solitária vai colocar-se exactamente no centro do cantão, a condicionar o posicionamento das outras duas, como referido. Percebe-se com clareza a exigência do processo iterativo na génese destes brasonamentos medievais. Não seria possível definir o arranjo das estrelas e da nuvem em duas construções estanques e independentes. O brasonamento estabelece ainda que a estrela deve achar-se sobre o cantão, apesar da semântica demandar o inverso, fazendo-nos entender que nem sempre a descrição expressiva formal será um guia mais adequado para a compreensão do conteúdo subjacente. Creio que será esta a dificuldade capital para que a ciência heráldica liberte-se das interpretações convencionalizadas pelas normativas tardias.

Segundo parece, simboliza-se no desenho outra característica imanente às nuvens, o movimento, talvez em simultâneo com o fenómeno de complementação dos traços heráldicos. A nebulosidade não poderia ocupar todo o campo do brasão: perderia muito da sua força expressiva. Excluímos assim de todo a obstrução das três estrelas. Só a oposição amarelo × negro permite vislumbrar com clareza o enredo que se procura representar. A ocupar apenas um pedaço do campo, um farrapo de nuvem apresta-se a ocultar apenas uma estrela, também no primeiro cantão do esquartelado, como é hábito, aliás, nos brasonamentos. Ao mesmo tempo esta localização provoca o desequilíbrio visual pela assimetria dos espaços cromáticos. O desequilíbrio traduz-se em movimento e vai contribuir à semântica através de outra metonímia: nuvem > movimento > desequilíbrio > assimetria. A opção de usar-se, por exemplo, um contrachefe em branco, deixaria a desejar pela estabilidade implícita.

 

 


Sagremor - Armas de Fantasia (III)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Sagremor
Hidrónimo M Danúbio
Língua de Fantasia V Danubius (latim)
Denominante A Danubius
Grafemização A  D  |  A  |  N  |  U  |  B  |  I  |  U  |  S 
Fonemização denominante A d  |  a  |  n  |  u  |  b  |  iu |  s 
Emparelhamento A d  |  a  |  n  |  u  |  b  |  iu |  s 
A d  |  a  |  n  |  u  |  b  |  i |  s 
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 1,0 | 0,0
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Índice de discrição A k = 0,14
Fonemização designante A d | a |   | n | u | b | i | s
Grafemização A D | A |   | N | U | B | I | S
Designante A da | nubis
Acção + Meteorologia E diz + nuvem
Redundância, metonímia simples S diz › falante › arma falante
S diz
Monossemia simples S cantão
S nuvem
Esmalte H De vermelho
Número H 1 um
Separação H farrapo cantão
Imanência C nuvem
Localização C primeiro quartel
Simetria C assimétrico
Metonímia simples S nuvem › móvel › desequilíbrio › assimetria
Esmalte H esbranquiçada de prata
Imanência C nuvem
Contraste C vermelho, negro
Conectivo H cantão + estrelas e
Número H três
Figuração H estrelas de cinco pontas
Número H duas
Esmalte H de ouro
Conectivo H estrelas + estrela e
Número H 1 uma
Figuração H 5 pontas (estrela)
Preenchimento C área do cantão
Simetria C eixo vertical do cantão
Centralidade C diagonais do cantão
Esmalte H obstrução de negro
Imanência C nuvem
Contraste C prata
Oposição S luz × obscuridade
Localização H debaixo da nuvem no cantão

(próximo artigo nesta série III/III)



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Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

(U) Terminologia

 

Esta nomenclatura é provisória por natureza e será acrescentada e aperfeiçoada à medida que o progresso da investigação o exigir. As definições heráldicas procurarão ser coerentes entre si, de modo a evitar algumas incongruências terminológicas ainda existentes na literatura disponível. Devemos lembrar, por outro lado, o objectivo final de estender estas definições à Semiótica Visual como um todo, daí que nem sempre o formato muito particular do campo em forma de escudo, por exemplo, adequar-se-á a uma generalização sintáctica.

Ordenámos as entradas, mas isso não implica seguir a ordem alfabética correspondente aos vários artigos sucessivos, guiando-nos acima de tudo pelo interesse que a definição formal dos termos já publicados possam suscitar. Incluímos após cada termo as tipologias respectivas, entre chaves, de maneira a situar melhor o leitor. Novas interpretações e vocábulos introduzidos durante a investigação aparecem classificados como neologismos; a grande maioria híbridos da Heráldica e da Semiótica. Sempre que possível incluiu-se um exemplo de cada acepção, preferencialmente os existentes no armorial português, na dissertação ou neste blogue. As primeiras acepções não se assinalam (1) nas suas entradas.

Usaremos aqui os sinais da tabela publicada no artigo Siglas, Símbolos e Abreviaturas. Relembramos apenas alguns, que dizem respeito às tipologias de cada entrada: {ASP} (traço heráldico de aspecto), {ASS} (traço heráldico de assentamento), {ATI} (traço heráldico de atitude), {AUX} (disciplina auxiliar), {CON} (traço heráldico conectivo), {DIS} (traço heráldico de disposição), {ENC} (traço heráldico de encobrimento), {ESM} (traço heráldico de esmalte), {FIG} (traço heráldico de figuração), {HER} (Heráldica), {LIN} (Linguística), {LOC} (traço heráldico de localização), {NEO} (neologismo), {NUM} (traço heráldico de número), {ORI} (traço heráldico de orientação), {PAD} (traço heráldico de padrão), {PRO} (traço heráldico de proporcionalidade), {SEM} (Semiótica), {SEP} (traço heráldico de separação).

 

ucraniano {LIN} Língua de verbalização eslava falada na Europa Oriental.
(e.g. armas do Principado da Galícia)

um {HER} {NUM} Traço heráldico desta quantidade.
(e.g. armas dos Calaça)

um (2) {HER} {NUM} Equivale a uma única unidade do mesmo traço heráldico depois repetido no brasonamento.
(e.g. armas dos Padilha)

um (3) {NEO} Especificação desta quantidade.
(e.g. armas do Ducado de Brabante)

unha {HER} {FIG} Ver "casco".

unhado {HER} {CON} Conectivo da figuração implícita de um casco num animal ao seu esmalte, que é distinto do corpo.
(e.g. armas dos Pimentel)

unicórnio {HER} {FIG} Figuração deste animal fantástico.
(e.g. armas dos Teixeira)

unidade combinatória {SEM} Modo replicativo da formação de um signo pela associação articulada de traços sígnicos bem determinados e segundo um conteúdo.

unidade pseudo-combinatória {SEM} Modo replicativo da formação de um signo pela associação articulada de traços sígnicos bem determinados e de conteúdo vago.

unido {HER} {ORI} Figurações, habitualmente lisonjiformes, orientadas entre si pelo contacto consecutivo das suas pontas numa só direcção.
(e.g. armas dos Barejola)

unido (2) {HER} {ASP} Aspecto de várias figurações empilhadas umas sobre as outras.
(e.g. armas dos Brandão)

unido (3) {HER} {DIS} Disposição de duas meias-figurações reunidas pelas secções.
(e.g. armas dos Loronha)

unido (4) {HER} {DIS} Ver "reunido".

universo amostral {AUX} Conjunto dos elementos em estudo disponíveis para a amostragem estatística; população.

urso {HER} {FIG} Figuração deste animal do género Ursus.
(e.g. armas dos Silveira)

urtiga {HER} {FIG} Ver "ortiga".

uvular {LIN} Fonema consonantal gerado pela constricção do ar entre a língua e a úvula.

 

Temática:

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