Terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Reis de Jerusalém: Esmalte Prata

Reis de Jerusalém

 

As Doze Portas de Jerusalém

Após termos efectuado cinco análises exemplificadoras da heráldica de fantasia, começamos agora um novo capítulo ao introduzir estas armas de domínio do Reino medieval de Jerusalém. Por armas de domínio entendemos quaisquer armas heráldicas que representem a propriedade pessoal e transmissível de um território secular. Acomoda senhorios, condados, ducados, reinos e impérios entre outros do mesmo género.

Para nossa surpresa encontrámos doze níveis semânticos, os quais parecem actuar diversamente de acordo com a apreciação primitiva de cada variante. Mais do que a quantidade, o que nos causa admiração é a simplicidade formal capaz de produzir um resultado semântico tão fértil. Além disso, não só os traços heráldicos podem ser explicados de mais de uma maneira, como também sugerirão que estes níveis organizaram-se em diversa medida ao longo do tempo, a confiar nas fontes. Esta densificação da estrutura do significado será difícil de ultrapassar no futuro por outro brasão.

Embora incorporando duas referências dissimilares - uma para Jerusalém e outra para Chipre - preferimos tratá-las como uma representação única e manter o título convencional, mencionando as armas como correspondentes apenas aos Reis de Jerusalém. Aparentemente, a mudança foi gradual e conservou a maior parte dos valores semânticos iniciais.

 

Primeiras Iluminuras

Aparecem logo em meados do século XIII na Historia Anglorum de Mateus de Paris, onde se vê uma cruz em prata firmada sobre um campo de ouro, lembrando a morte de João de Brienne, Rei Consorte de Jerusalém, em 1237[1]. A Rainha Maria faleceu em 1212 e João deixa a coroa para a filha de ambos, Isabella, e vai reger o Império Latino. O autor também admite para aquele Rei os mesmos esmaltes e cruz porém  esta cantonada por quatro, quatro, três e três cruzetas[2][3]. A inconsistência cromática das delgadas cruzetas castanhas pode ser explicada pela necessidade de fazê-las em pequena dimensão, usando para isso a mesma pena que se utilizou para delinear os escudos e outras formas. Ademais, o uso de metal prateado no castelo de Castela na mesma página levanta a suspeita de alguma negligência no uso dos esmaltes.

Outros armoriais apresentam variações sobre o tema principal, o número de cruzetas varia e a cruz central, de formas variadas, podendo permutar os esmaltes com o campo. De modo a simplificar a organização deste artigo serão adoptadas as armas tradicionais dos Reis de Jerusalém: de prata uma cruz potenteia de ouro cantonada de quatro cruzetas do mesmo. Parece ser a interpretação que dá melhor uso à maior parte dos níveis semânticos em discussão. Outras composições podem ser encarados como versões incompletas, tratadas no corpo do texto sempre que oportuno.

Será possível tomar como verdadeiras estas armas do Reino de Jerusalém e confiar inteiramente nas fontes, até quando secundárias ou terciárias? Não é esta a nossa tarefa; apenas propomos soluções para a origem parofónica das formas e cores observadas nos brasões. Veremos contudo que até composições muito simples poderão acomodar-se confortavelmente no enredo heráldico que explorámos.

 

As Moedas Precursoras

A numismática poderia parecer mais ilustrativa, já que se conhecem moedas de reinados mais antigos em Jerusalém, com a vantagem de uma identificação contemporânea confiável. Infelizmente estes hábitos pictóricos parecem ser distintos dos usados na heráldica. Mas isto não implicará que a parofonia esteja ausente, uma vez que é mesmo atestada nas primeiras cunhagens feitas pelo homem. Sabemos que não foi uma prática sistemática, coexistiu com inscrições, monogramas, efígies, imagens arquitectónicas e outros símbolos. Os seus referentes e metonímias provavelmente serão distintos, daí que este problema necessite de uma verificação aprofundada para melhor entendimento.

No que se refere ao nosso tema, aparecem no reverso das moedas a Torre de David e a Igreja do Santo Sepulcro, enquanto uma cruz, talvez de uso genérico e indiferenciado, é vista no obverso[4]. Por sua vez. os reis de Chipre e Jerusalém usaram o leão de Lusignan ou a cruz potenteia. Tentaremos considerar atempadamente como a heráldica e a numismática poderão convergir e auxiliar a nossa investigação.

 

Um Rio Oculto

O francês seria uma escolha óbvia como língua de conquista para a fase de verbalização. A maior parte dos cruzados era francófona e muitos dos governantes que estabeleceram o seu poder na Terra Santa pertenciam à mesma esfera linguística. Mais uma vez, o Latim poderia ser hipoteticamente considerado como instrumento geral de verbalização, mas não se encontraram parofonias razoavelmente adaptadas aos traços heráldicos disponíveis.

Começamos o nosso trabalho com um hidrónimo artificial, construído por uma antigo Rei de Judá: o Túnel de Ezequias. Transfere água da Fonte de Gião para a Piscina de Siloé, atravessando a parte mais antiga da cidade por baixo da terra, já que não existem quaisquer rios ali [5]. Produz-se assim a parofonia Ézéchias (fra. Ezequias) ~ Exequies (fra. exéquias) bizarra associação de uma fonte de vida aos rituais fúnebres.

Relativamente à necessidade de um hidrónimo para a metonimização do referente, não foi algo que tivéssemos proposto à partida dos nossos estudos, mas antes uma evidência inesperada que surgiu após inspeccionarem-se muitos armoriais. Aqui já tínhamos visto o Danúbio no brasão de Sagremor e o rio Itchen nas armas de fantasia de Eduardo o Confessor. Outras representações talvez mostrem com mais eloquência as conexões hidronímicas aos respectivos traços heráldicos. Tal será o caso das armas do Condado de Werdenberg (rio Tobel), do Condado da Borgonha (rio Saône), do Ducado da Baviera (rio Regen) e do Viscondado de Rochechouart (rio Vayres)[6]. Não sabemos ao certo quando e onde tudo começou mas esta aparenta ser uma peculiaridade dos brasões, ainda não detectada em moedas, selos primitivos ou o que quer que seja que tenha precedido a heráldica. Talvez no futuro se possa distinguir melhor a razão para estes hidrónimos aparecerem em tais circunstâncias.

 

Um Funeral Branco

O designante exequies precisa ser transformado em cor ou forma usando o conceito de exéquias, talvez por demais abrangente para desenhar-se de imediato. Acreditamos que esta transformação não foi decidida isoladamente, mas em conjunto com outros níveis semânticos considerados como viáveis pelo criador das armas. Para este fim tem lugar uma metonimização que selecciona apenas a conclusão da ideia contida em “exéquias”, o enterramento e sua representação objectiva - o sepulcro - e logo a sua matéria lítica. Focaliza-se o tema a partir do evento completo até ao pormenor da textura:

exéquias > túmulo > pedra > branca

O branco e o amarelo podem ser considerados como imanências da pedra como já vimos num grande número de espécimes que analisámos. O cinzento, o rosado e o acastanhado também poderiam ser presumidos mas devemo-nos limitar aos códigos cromáticos da heráldica. Talvez o amarelo, em vez do branco fosse considerado como uma escolha alternativa para a lápide que agora vemos. Devemos saber em primeiro lugar quem era o defunto, porque o significado será mais bem percebido na sua completa implementação.

 

Quem é o Defunto?

O contributo deste nível para o significado visual do brasão não se limita ao esmalte. Auxilia, além disso, à definição das linhas fundamentais do enredo heráldico. Os funerais sugerem riquíssimas associações plásticas, a demandar os ritos que terão a sua conclusão na sepultura inferida nestas armas. A ser assim, também suporá um cadáver e um eventual epitáfio, que serão argumento para o próximo nível semântico. Ainda não sabemos o significado do restante mas o conjunto de cruzes poderia bem ser entendido como pertencendo às exéquias, num sentido geral.

Em condições menos restritivas seria possível derivar espontaneamente a individualidade de Cristo do dito cerimonial. Não parece poder haver qualquer dúvida na mentalidade dos cruzados: o funeral de maior significado em Jerusalém seria o que levou Jesus a enterrar. Contudo, as possibilidades semânticas destas armas são tão abundantes que o nome do defunto será declarado num nível próprio a ele dedicado. E seria esta eventualmente a razão porque nunca vemos um escudo pleno de prata como simplificação extrema das armas de Jerusalém: há sempre uma cruz presente.

 

Muito e Pouco Discreto

A nossa percepção metodológica de [ch] como [k] em Ézéchias repete a heterofonia homográfica encontrada em Itchen ~ I chenne. É igualmente possível que os dialectos franceses setentrionais influenciassem os usos linguísticos ou que a pronúncia latina prevalecesse, evitando a palatalização logo desde o início. Desconhecemos em pormenores precisos a articulação e a ortografia do francês em Jerusalém por aquela altura, mas tudo o que precisamos é de algum bom-senso para decidir se as nossas parofonias podem ser admitidas ou não [7].

O índice de discrição é bastante superior ao que nos tínhamos habituado, já que k = 0,60, mas se escutarmos casualmente o som de Ézéchias ~ Exequies, a impressão é de uma similaridade aceitável. Isso explica por que tivemos de considerar a nossa escala de parofonias mais como um índice de admissibilidade do que como uma qualificação progressiva. A dimensão das duas palavras, emparelhadas com cinco elementos fonéticos, certamente não ajuda a diminuir a estimativa: mesmo se aplicarmos a correcção adequada às pequenas extensões, como se fez em Itchen ~ I chenne, esta apenas nos dará um valor ligeiramente inferior: k = 0,56.

Tais discrepâncias na avaliação dos índices de discrição são um facto a que devemos nos habituar, uma vez que se adoptou uma modelização heurística. Somente um modelo físico, baseado na correspondência das características acústicas, poderia produzir um resultado mais satisfatório. Devemos recordar, contudo, que uma boa parte das parofonias está também vinculada à escrita, o que enfraquece de algum modo esta modalidade de aperfeiçoamento.

 

O que se Segue

Quem quer que seja a personalidade falecida, a sua condição manter-se-á na representação armorial. No caso especial de Cristo, num ambiente cristão, não se vê outra alternativa possível que não fosse a ressurreição ao terceiro dia. Devemos então considerar que o enredo acontece entre a Sexta Feira Santa e o Domingo de Páscoa. Isto porém não deverá necessariamente forçar-nos a incluir figurações como as chagas na nossa interpretação. As únicas fontes de inspiração primitivas que se devem considerar são as parofonias resultantes das metonímias do referente. Tudo o mais que se vê nos traços heráldicos, mesmo os complementos mais óbvios, não as devem contradizer.

Vale a pena, por fim, mencionar a importância atribuída ao Santo Sepulcro na época medieval, um dos motivos principais da conquista de Jerusalém. Godofredo de Bulhão, o primeiro soberano dos cruzados, foi declarado Protector do Santo Sepulcro e enterrado naquela Igreja, que assistiu a coroações e outros eventos da realeza depois disso. Será possível associar Jesus às exéquias estipuladas pelo esmalte? É o que veremos a seguir.

 

[1] DE VRIES, Hubert - Jerusalem - De Rode Leeuw - 2011 : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

[2] PARISIENSIS, Matthaei; MADDEN, Frederic (ed.) - Historia Anglorum - Londres: Longman, 1866-1869 : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

[3] PARISIENSIS, Matthaei - Historia Anglorum - (manuscrito), 1250-1259 : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

[4] WIELAND, Simon; RUTTEN, Lars; BEYELER, Markus - Medieval and Modern Coin Search Engine - mcsearch.info - 2012 : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

[5] CITY OF DAVID - Hezekiah’s Tunnel - (vídeo), s. d. : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

[6] DA FONTE, Carlos - Semântica Primitiva das Armas Nacionais e alguns dos seus Aspectos Sintácticos e Pragmáticos - Porto: FEUP, 2009 : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

[7] BETTENS, Olivier - Chantez-vous Français? - 1996-2012 : Acedido a 23 de Setembro de 2012, disponível aqui.

 

 Reis de Jerusalém - Prata

Reis de Jerusalém (I)

Classificação Descrição
Armas de Domínio R Reis de Jerusalém
Hidrónimo M Túnel de Ezequias
Língua de Conquista V Francês
Denominante A Ézéchias
Grafemização A  É  |  Z  |  É  |  C  |  H  |  I  |  A  |  S 
Fonemização denominante A  e  |  z  |  e  |  k  |  iA 
Emparelhamento A  e  |  z  |  e  |  k  |  iA 
A  E  | gz |  e  |  k  |  i 
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de carácter A 0,5 | 0,5 | 0,0 | 0,0 | 0,5 
Coeficiente de posição A 1,5 | 1,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 
Parcelas A 0,8 | 0,5 | 0,0 | 0,0 | 0,3 
Índice de discrição A k = 0,60
Heterofonia homográfica A (Ézé)ch(ias) > [(eze)S(iA)]
A (Ézé)ch(ias) > [(eze)k(iA)]
Fonemização designante A  E  |  gz  |  e  |  k  |  i 
Grafemização A E | X | E | Q | U | I | E | S
Designante A exequies
Outros substantivos E exéquias
Monossemia simples S prata
S exequies
Metonímia simples S exéquias > túmulo > pedra > branca
Esmalte H esbranquiçado De prata
Imanência C pedra
Contraste C ouro
Número H uma
Figuração H cruz
Aspecto H potenteia
Esmalte H de ouro
Localização H cantonada de
Número H quatro
Figuração H cruzetas
Esmalte H do mesmo

(próximo artigo nesta série II/XII)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 19:05
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

Eduardo o Confessor: Esmalte Azul

 Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia

 

O Rio de Winchester

O quinto nível semântico presente nas armas de Santo Eduardo o Confessor repete a inspiração geográfica da metonímia do referente que o antecedeu: Wincestrin. Além da alusão directa a Winchester podemos agora observar a representação verbal do seu rio Itchen. Similarmente, numa análise anterior, tínhamos aplicado o rio Danúbio como contiguidade de Sagremor e Buda. Não foi possível encontrar o nome anglo-normando para este hidrónimo, usámos portanto o equivalente em Inglês como denominante. Na verdade, nem sequer sabemos se existiu qualquer palavra específica naquela língua mas, aparentemente, não seria muito diferente de Itchen.

Entretanto, a segunda parte da nossa parofonia, o designante, continua a usar o anglo-normando. A este género de combinação chamamos hibridização linguística. Para as parofonias resulta frequentemente do desconhecimento sobre a forma de expressarem-se ambos os componentes adoptando-se apenas uma língua, como neste caso. Também podem aparecer com termos locais que sobrevivam no vocabulário de uma lingua franca. Em português, por exemplo, surgem palavras góticas e árabes simultaneamente com o latim de modo a construirem designantes.

 

A Etapa de Acomodação

A parofonia actual constrói-se com Itchen ~ I chenne (ano. uma canada), o último componente carecendo de ser ajustado antes de poderem comparar-se os seus fonemas com os do denominante. Uma primeira metonímia diverge a partir do grafema comum “I”, de reconhecimento simples, além disso sustentado por outras ocorrências na nossa investigação. É responsável pela transformação da letra i no numeral romano que vale um.

I(chenne) < I (letra i) < I

I (chenne) < I (número 1) < I

Além disso, assinalamos o uso de um par de grafemas, ch”, com duas expressões possíveis, adoptadas convenientemente para auxiliar à parofonia. Em primeiro lugar quando Itchen deve ser comparado com a fonemização similar de chenne, em que ch soa como [S]. Em segundo lugar quando se constrói o significado e necessitamos da palavra que significa uma canada, ou seja, chenne, e ch soa agora como [k], como outras formas conhecidas - cane ou canne - muito próximas ou iguais à pronúncia actual em francês. Um exemplo semelhante vê-se nas armas dos primeiros reis de Portugal para a sua capital Coimbra. De modo a denotar que o mesmo grupo de letras configura sonoridades distintas baptizámos este fenómeno recorrente como heterofonia homográfica.

ch(enne) > [k(@n)]

ch(enne) < [S(@n)]

 

Uma Fórmula Especial

Concluídos a acomodação e o emparelhamento calculámos também o índice de discrição, k = 0,19. Este procedimento teve de recorrer a uma fórmula mais extensa, aplicada para compensar o escasso número de fonemas e consequente desequilíbrio (ver Fórmula 3.1 à p. 51 na dissertação). Desse modo levou-se em conta adicionalmente o número total de transformações (j = 1) divido pelo quadrado do valor máximo entre o denominante e designante, max (D, d)2 = max (4, 4)2 = (4)2 = 16. Subtraiu-se portanto 1/16 = 0,0625 da nossa fórmula principal para obter 0,250 - 0,0625 e o valor de k = 0,19.

 

A Canada Vazia

Uma segunda metonímia justificará o azul do enredo heráldico das armas de Santo Eduardo. Já tínhamos mencionado que a aplicação do referido esmalte não era compatível com um céu, pelo menos neste brasão. É certo que cruzes e pássaros ajustar-se-iam com perfeição a este pano de fundo mas relembramos que as merletas não voam no escudo de Santo Eduardo. Sabemos ainda que o azul representa a água na heráldica, contudo cinco merletas a flutuar em torno de uma cruz que se afunda parece ser uma conceptualização algo inadequada. Qual a alternativa?

O designante chenne (ano. canada) era também entendido como medida de capacidade para líquidos, sentido reforçado pelo numeral romano I que o precede. Uma medida largamente utilizada com água, vinho e eventualmente com sólidos a granel. A próxima transformação recorre ao que quer que seja que estivesse a ser medido como ideia determinante, em vez do contentor propriamente dito. De um modo parecido dizemos: Bebi um copo de leite em vez de Bebi o conteúdo de um copo de leite. Mas o conteúdo de que falamos é efectivamente água por algumas boas razões.

 

Uma Água muito Particular

A motivação mais óbvia para o azul é que este reproduz a cor da água heráldica, assim como o esmalte púrpura seria o mais natural para o vinho, o prata para o leite e assim por diante. Em segundo lugar, a quantidade relativamente pequena de uma canada seria apenas suficiente para molhar o campo, permitindo que os pássaros e a cruz fossem suportados pelo chão. A água, em terceiro lugar, embora representada através do azul, entende-se como transparente e se aplicada sobre o todo este permaneceria imaculadamente limpo. Em quarto lugar poderíamos dizer que este designante, à partida,  também representa um rio, e não é necessário acrescentar de se constitui. Finalmente, devemos responder à pergunta - Que espécie de líquido seria suficientemente respeitável para acompanhar as cinco aves que representam a santidade de Eduardo e o símbolo do próprio Cristo? Não deveria prejudicar, empanar ou, de qualquer outro, modo dessacralizar o enredo que já temos organizado.

A resposta não poderia ser outra senão a água benta, em perfeita associação com o bando de aves e com a cruz. Observe-se, incidentalmente que é de hábito aspergida, talvez a significar que se estenda sobre as figurações, se ainda considerarmos a mencionada transparência. Note-se que a expressão em anglo-normando é euwe benette, mas pode-se admitir facilmente para o fim do século XIV que o inglês pudesse afectar a metonímia. Repare-se que tal não seria mesmo estritamente necessário, devido à significativa ambientação religiosa do brasão. Sem dúvida o todo é influenciado pelo estatuto de Eduardo como santo. Formalmente, trata-se de mais uma metonimização convergente:

Eduardo > Santo Eduardo > santo (ing. holy)

uma canada > conteúdo > água benta (ing. holy water)

 

O Esmalte Azul

Necessitamos ademais de justificar a convenção azul para a água. A percepção desta cor nas extensões pouco profundas considera-se como causada pela reflexão e dispersão da luz do céu, o que não se adaptaria bem a uma generalização. Para mais o mar é intrinsecamente azul mesmo durante as tempestades, quando os céus mostram-se acinzentados. Este azul apresenta-se quase imperceptível na neve e no gelo, mas tudo resulta do mesmo fenómeno físico. Provavelmente foram estas as tonalidades de azul que inspiraram a heráldica e muitas outras representações da água. De qualquer modo, o oceano é a mais poderosa, extensa e majestosa manifestação aquática, e o mecanismo de sublimação surge também para tingir qualquer forma ou quantidade de água com a cor azul; uma metonímia convergente tripla:

mar > azulado

água do mar > azulada

qualquer água > azulada

Deveríamos terminar aqui os nossos comentários sobre as armas de Santo Eduardo o Confessor, mas encontramos há pouco um sexto nível semântico. Assim esta série não acabará hoje como referimos antes. Felizmente este nível não prejudica a sequência de apresentação dos cinco anteriores; trata-se mais de um complemento que considera tudo o que já dissemos.

 

 Eduardo o Confessor - Azul

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia (V)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Eduardo o Confessor
Hidrónimo M Rio Itchen
Hibridização Linguística V Inglês ~ Anglo-Normando
Denominante A Itchen
Grafemização A  I  |  T  |  C  |  H  |  E  |  N 
Fonemização denominante A i  |  tS  |  @  |  n
Emparelhamento A i  |  tS  |  @  |  n
A i  |  S  |  @  |  n
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,5 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de posição A 0,0 | 1,0 | 0,0 | 0,0 
Parcelas A 0,0 | 0,5 | 0,0 | 0,0 
Índice de discrição A k = 0,19
Heterofonia homográfica A ch(enne) > [k(@n)]
A ch(enne) > [S(@n)]
Fonemização designante A i | S | @ | n
Grafemização A I | | C | H | E | N | N | E
Designante A I chenne
Outros substantivos E une chenne
Metonímia divergente S I(chenne) > I (letra i) > I
S I (chenne) < I (número 1) < I
Monossemia simples S azul
S I chenne
Metonímia convergente S Eduardo > Santo Eduardo > santo (holy)
S 1 canada > conteúdo > água benta (holy water)
Esmalte H azulada De azul
Imanência C água
Contraste C ouro
Metonímia convergente, Sublimação S mar > azulado
S água do mar > azulada
S qualquer água > azulada
Número H uma
Figuração H cruz
Aspecto H florenciada
Esmalte H em ouro
Localização H acantonada de
Número H quatro
Figuração H merletas
Conectivo H e
Número H mais outra
Localização H em ponta
Número H todas
Esmalte H do mesmo

(próximo artigo nesta série VI/VI)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 16:09
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2012

Eduardo o Confessor: Esmalte Ouro

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia

 

Falantes mas ...

Chegámos finalmente ao ponto em que se consideram os esmaltes. Qual é a certeza de que esta suposta parofonia aplicada às cores é suficientemente razoável para ser aceite? Por quê não se atribuem os esmaltes a uma propriedade natural das entidades que se vêem delineadas nos brasões? Infelizmente as coisas não são assim tão simples. Ninguém poderá assegurar que esta ou aquela imagem é falante, por exemplo. Mesmo representações “óbvias” como as usadas pelos Reis de Leão (De prata um leão de púrpura) viram contestado o seu estatuto falante. Alguns autores afirmam que este leão pode muito bem representar a força e o carácter do rei, em vez de um trocadilho que lembre o nome do seu reino: Llion llion (leo. leão). É matéria de interpretação pessoal, que coincidirá ou não com as intenções primitivas.

É perfeitamente admissível que as cores sejam falantes, mesmo sob um ponto de vista tradicional. Aparecem normalmente na forma de esmaltes plenos como em Rossi ~ Rossi (ita. vermelhos), onde o vermelho que ocupa todo o campo do escudo transforma esta evidência em inevitável explicação. A metodologia parofónica permite um domínio de interpretações mais completo, explicando mesmo pequenos pormenores cromáticos, de outra forma menosprezados. Por outro lado, o que parece ser um esmalte natural e desenxabido poderá esconder um significado surpreendente e inesperado, como o campo azul usado nas armas dos reis de França. Naturalmente, a maior parte das figurações heráldicas apresenta as suas cores naturais.

 

Leões Azuis e Águias Púrpura

O que torna  algo irrazoável a negação deste tipo de fenómeno é que as armas falantes são percebidas como uma manifestação heráldica geral e reconhecida. Portanto, se ocorre noutras ocasiões deveria também ocorrer neste caso particular. Pode dizer-se o mesmo acerca da parofonia, com a diferença de que aqui o universo alcançado é bem maior. Poderá influenciar cada um dos aspectos do brasonamento: figurações, separações, atitudes, esmaltes, etc.

Não resta praticamente nada para uma escolha arbitrária, cada traço heráldico parece propenso a uma intenção parofónica deliberada ou resultar de uma imanência dos outros elementos já representados. Mas se por acaso encontrarem-se leões azuis, águias púrpura ou céus verdes, acreditem, haverá aí mais do que uma simples arbitrariedade estética. O homem medieval não era tolo ou ingénuo, como alguns poderão comodamente pensar, talvez a justificar a insanidade e insensibilidade dos nossos tempos.

 

A Cruz Dourada

Devemos abandonar as nossas generalizações e voltar à cruz e aves de Santo Eduardo. Notámos anteriormente que o esmalte dourado poderia ser o mais apropriado para a nossa cruz. Madeira, ouro, latão ou bronze conviriam perfeitamente ao artefacto e poderiam de facto ser a motivação por detrás das cores. Mas antes já tínhamos proposto que os quatro lises nos braços da cruz  seriam os mesmos presentes na Coroa de Santo Eduardo. Não se poderia assumir que o resto do material da cruz fosse também em ouro, afinal um tipo de amarelo - caso encerrado - ou talvez não? Sim e não. Aceitamos que a cruz que aparece nas armas de Santo Eduardo seja feita em ouro. Não devemos, contudo, recusar outras contribuições parofónicas que abranjam esta propriedade da cruz heráldica desde que não haja conflito. Trata-se precisamente disso, o que explicitaremos mais abaixo.

 

Da Cor das Andorinhas

Depois destas considerações sobre a cruz volvemos a nossa atenção para os pássaros. As merletas heráldicas usadas em Inglaterra inspiraram-se nas andorinhas, uma ave gregária bem conhecida, com um bico pequeno e patas diminutas, de tal modo que quase não as vemos, seja na vida real seja nos desenhos simplificados da heráldica. Não existem contudo andorinhas amarelas e mesmo pássaros inteiramente dessa cor são difíceis de encontrar na Europa.

O facto de que as merletas representam pássaros em geral não ajuda muito pois aparecem em variados esmaltes. As armas de fantasia de Sussex que incluem seis merletas - três, dois e um - aparecem em documentos tardios e é difícil chegar-se a qualquer conclusão formal a partir daí. Parecem inspirarem-se nas armas estudadas neste artigo e mencionamos a parofonia Sussex ~ Suos (lat. seus) sex (lat. seis), que poderia referir alguém em particular. Talvez o autor não conhecesse ou ignorasse a parofonia - Seint ~ Cinc - aplicada a Eduardo e por conveniência admitisse seis elementos no bando de aves, usando o Latim como instrumento arcaizante. Se aceitarmos esta inspiração, as armas poderão datar-se como posteriores ao século XIV. Os restantes aspectos desta representação devem deixar-se para uma pesquisa posterior.

Na generalidade poderíamos admitir que quaisquer andorinhas castanhas pudessem ser transformadas em ouro, uma suposição pertinente, ou que o brilho da cruz em ouro se reflectisse nas merletas. Também poderia ser entendido por alguns como derivado de um nimbo cruciforme formado pelo aro da moeda e pela cruz, o todo a espalhar algo da claridade para as pombas; mas não existem cores nas moedas e Eduardo não era ainda reconhecido como santo.

 

O Rei em Winchester

Deixem-nos ainda fazer mais uma observação sobre a metodologia parofónica. A vasta maioria das metonímias do referente são de carácter geográfico e ainda não aplicámos nenhuma. Por quê será? Provavelmente porque estas armas baseavam-se numa representação numismática e que estas demandassem uma inspiração distinta. Lembramos que as três metonímias já encontradas baseavam-se na antroponímia - Edouard Et due harde - e na condição de Eduardo - Seint Cinc e C(e)roi Crois. Isso é decididamente surpreendente se formos compará-las com as representações típicas e ainda mais seria se não existissem parofonias suplementares e consequentemente quaisquer metonímias geográficas.

A capital de Eduardo o Confessor era Winchester e apenas mais tarde com a conquista normanda iria transferir-se para Londres. Já vimos nas armas de Sagremor - Aquincenses Ac quini sentes - que estes demónimos podem ter um papel importante para traduzir o referente em imagens. Esse também é o caso para o Rei Eduardo, não na forma plural usada para o cavaleiro húngaro imaginário mas apenas como mais uma circunstância da sua vida: alguém que viveu em Winchester. Note-se que Eduardo não nasceu ali; a parofonia está ligada à cidade como capital do Reino, não ao local de nascimento do Rei.

A parofonia constrói-se usando j' Wincestrin (ano. eu Winchestrense) ~ juints cestrins (ano. juntos amarelo-limão). Não foi possível encontrar a palavra anglo-normanda específica Wincestrin ou, já agora, qualquer outra, para os habitantes de Winchester. É possível, porém, achar Wincestre para o nome da cidade e compará-la então com outros gentílicos conhecidos, como Parisin, inferindo-se as conclusões necessárias. “Juntos” refere-se a qualquer coisa que possa ser enumerada dentro do escudo, excluindo-se obviamente o campo por incontável e ademais necessário ao contraste.

 

Um Tom Francês

Repare-se ainda que Je (ano. Eu) transforma-se em J' perante sons vocálicos mas mesmo ao preceder consoantes na prática oral e além disso que os plurais terminados em “s” são mudos. A pronúncia da primeira sílaba de Wincestrin poderia muito bem ser [win] em vez de [wẼ], de acordo com a natureza local da palavra. O índice de discrição seria alterado ligeiramente de k = 0,0 para k = 0,30, nada de alarmante, mas preferimos acompanhar o óbvio desígnio de uniformização sonora, exagerando talvez o entusiasmo referente aos aspectos francófonos do anglo-normando.

 

Metonímias

Tanto o denominante como o designante vêem o seu significado restringido pela metonimização. O primeiro através de duas metonímias convergentes:

Eu > brasão > armigerado > Eduardo

Winchestrense > vive em Winchester > o rei > Eduardo

O segundo como duas metonímias simples distintas:

juntos > todos > figurações > cruz e merletas

amarelo-limão > amarelado > ouro

 

Santas Aves

Poderíamos ter classificado a última metonímia como uma sublimação, em que o tom dourado reflectisse a escolha mais lisonjeira dentre todos os amarelos possíveis. Mas veja-se que já temos um pretexto cromático baseado nas flores-de-lis e que além disso um qualquer amarelo que aparecesse seria inevitavelmente descrito como ouro. Daí que a cor da cruz e das merletas deva ser entendida não como amarelo-limão mas como ouro, transformado e descrito pelas práticas do brasonamento. Isso não acontecerá sempre, algumas figurações necessitam de manter a sua identidade amarela de modo a garantir a consistência. As metonimizações cromáticas não ocorrem então, contradizendo a sua descrição no brasonamento, uma linguagem convencionalizada.

Necessitamos ainda de justificar o porquê das aves amarelas no enredo dos traços heráldicos das armas. Parece insuficiente afirmar que as cores provêem da parofonia amarelo-limão. É esta coerência que mantém o todo visual unido e ajuda a afirmar que seria muito difícil que proviesse de qualquer outro motivo que não fosse a intenção. Cestrin está frequentemente associado com a descrição de pedras preciosas. Tudo o que poderíamos imaginar naquele período seriam algumas pedras engastadas na cruz, o que não é o caso. Adicionalmente, não havia capacidade técnica para lapidar as gemas na forma da cruz ou das merletas por inteiro.

Deveremos buscar outra explicação. Voltemos atrás até à identificação das cinco merletas com a santidade do Rei Eduardo através do seu número, Seint ~ Cinc e respectiva condição de bando, Edouard ~ Et due harde. É legítimo pensar que a cor pudesse estar associada com essa condição. Não deveriam reflectir, portanto, o brilho da cruz em ouro, como suposto anteriormente, mas um resplendor interno de santidade.

 

O Resplendor Interno

Este resplendor é representado convencionalmente por um halo ao redor da cabeça dos santos quando se desenham figuras humanas. No que se refere a pássaros, a pomba do Espírito Santo surge de hábito como inteiramente branca com um resplendor amarelado à sua volta que emerge do interior. Seremos informados no quinto nível semântico de que o esmalte azul é “bento” assim não haveria qualquer vantagem semântica em diluir o campo com um halo. Pareceria de qualquer maneira uma técnica bizarra para um brasonamento deste período. O que aconteceu é que o autor do brasão simplificou o halo resplandecente através do esmalte das merletas, transformado a partir do seu brilho interior amarelado. De um modo similar, uma estrela é encoberta por uma nuvem branca e altera o seu esmalte de ouro para negro nas armas de Sagremor. Uma técnica realista teria colorido toda a nuvem de branco, mas deste modo não explicitaria o astro ainda escondido, ignorando a sua presença. Tudo o que precisamos para o enredo heráldico é uma construção credível, que possa “justificar” os aspectos determinativos da parofonia a montante, mesmo se insólitos, uma vez que derivam do acaso.

 

 Eduardo o Confessor - Cruz e cinco Merletas em ouro

Eduardo o Confessor - Armas de Fantasia (IV)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Eduardo o Confessor
Demónimo M Winchestrense
Língua de Conquista V Anglo-Normando
Denominante A J' Wincestrin
Metonímia convergente S Eu > brasão > armigerado > Eduardo
S Winchestrense > vive em Winchester > rei > Eduardo
Grafemização A  J'  |    |  W  |  I  |  N  |  C  |  E  |  S  |  T  |  R  |  I  |  N 
Fonemização denominante A Z  |  w  |  Ẽ  |  s  |  E  |  s  |  t |  R\  |  Ẽ
Emparelhamento A Z  |  w  |  Ẽ  |  s  |  E  |  s  |  t |  R\  |  Ẽ
A Z  |  w  |  Ẽ  |  s  |  E  |  s  |  t |  R\  |  Ẽ
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 
Índice de discrição A k = 0,0
Fonemização designante A Z | w | Ẽ | s | E | s | t | R\ | Ẽ
Grafemização A J | U | I | N | T | S | | C | E | S | T | R | I | N | S
Designante A juints cestrins
Coloração E amarelo-limão
Monossemia simples S ouro
S amarelo-limão
Esmalte H De azul
Número H uma
Figuração H cruz
Aspecto H florenciada
Esmalte H amarelo-limão em ouro
Localização H acantonada de
Número H quatro
Figuração H merletas
Conectivo H e
Número H mais outra
Localização H em ponta
Número H todas
Metonímia simples S juntos > todos > figurações > cruz e merletas
Metonímia simples, Redundância S amarelo-limão > amarelado > ouro
Esmalte H amarelo-limão do mesmo
Imanência, Redundância C ouro (flores-de-lis)
Contraste C azul

(próximo artigo nesta série V/VI)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 21:55
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Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

Sagremor: Esmalte Vermelho

Sagremor - Armas de Fantasia

 

Terminamos o estudo pelo primeiro nível semântico por expor-se melhor nesta ordem a organização das armas de Sagremor. Isso não quer dizer que o autor do brasão tenha adoptado uma qualquer sequência predeterminada; pelo contrário, deve ter ensaiado várias possibilidades antes de dar o trabalho por findo. A parofonia é descrita por Ungaria (lat. Hungria) ~ Ungo (lat. unto) area (lat. área), talvez a mais evidente de todas, dado o cognome aposto a Sagremor: o Húngaro. Os seus resultados visuais, muito singelos, diríamos quase exigirem outros componentes que viessem a preencher a excessiva simplicidade de um escudo pleno em vermelho. Convém acrescentar que como nos antecedentes, mantém-se a razoabilidade de um índice de discrição baixo: k = 0,25 e que ao estimar este indicador recorremos à ditongação de oa em ungo area, a emparelhar com Ungaria para alterar-se em Ungoarea.

O tema da parofonia parece afastar-se dos hábitos adquiridos em Aquincenses ~ Ac quini sentes e em Danubius ~ Da nubis ao compor indirectamente o “céu” suposto no pano de fundo das estrelas e da nuvem. Este afastamento é verdadeiro quanto ao modo de sematização da parofonia mas não quanto à representação em si mesma. É perfeitamente possível um céu vermelho à tarde ou pela manhã, admitindo ainda nestas ocasiões a visibilidade da nuvem e das estrelas ou dos planetas mais brilhantes. Contudo, ungo vai aplicar-se primariamente sobre a superfície do escudo especificada em area e apenas depois sobre os céus, como consequência natural do conjunto imagético que se pressupõe coerente. A sematização estabelece a metonímia: área > campo > campo do escudo > escudo. Encontramos um paralelo da unção dos escudos neste trecho do Segundo Livro de Samuel: ... O escudo de Saul não foi ungido com óleo, mas com o sangue dos feridos e a gordura dos guerreiros ...[1]. Tal como nos escudos medievais feitos de madeira e recobertos de couro a boa manutenção exigia uma protecção periódica. Não será, todavia, o óleo a colorir o artefacto de defesa usado por Sagremor, mas a ideia implícita de que era feito ou recoberto de couro, logo avermelhado ou acastanhado, colorações passíveis de inspirar o esmalte vermelho na representação do escudo heráldico.

A conjugação cromática aparenta ser arbitrária mas as dúvidas desvanecem-se ao examinarmos em pormenor a análise já efectuada. A seleccionarem-se convenientemente cores naturais, as estrelas fora do cantão serão amarelas, brancas ou azuis. Do mesmo modo a nuvem poderia ser branca ou negra, enquanto que o escudo de couro tratado pelo tanino apenas admitiria o vermelho. Quanto à estrela encoberta consentiria o negro ou eventualmente o branco, como descoloração do outro esmalte estelar que representasse a luz. Ficamos com as seguintes possibilidades, dispondo as cores pela ordem: estrelas, campo, cantão, estrela do cantão.

Azul + Vermelho + Negro + Prata (não) 
Azul + Vermelho + Negro + Negro (não) 
Azul + Vermelho + Prata + Prata (não) 
Azul + Vermelho + Prata + Negro (não) 
Ouro + Vermelho + Negro + Prata (não) 
Ouro + Vermelho + Negro + Negro (não) 
Ouro + Vermelho + Prata + Prata (não) 
Ouro + Vermelho + Prata + Negro (sim) 
Prata + Vermelho + Negro + Prata (não) 
Prata + Vermelho + Negro + Negro (não) 
Prata + Vermelho + Prata + Prata (não) 
Prata + Vermelho + Prata + Negro (sim) 

É possível observar que das doze hipóteses apenas duas são inteiramente admissíveis. Grande parte das opções é rejeitada pela aplicação da lei dos contrastes. Duas estarão no limite da admissibilidade ao incluir uma nuvem negra, que estimamos não fosse de primeira escolha, além de figurar o esmalte vermelho vizinho ao negro, apesar de por vezes encontrarem-se juntos na heráldica. Finalmente, restam dois arranjos bem-sucedidos dos quais um repete o esmalte do par de estrelas iguais na nuvem, proposta mais pobre do que a oitava combinação, coincidente com a escolha do brasão de Sagremor, o que não nos surpreende. 

Poderíamos ser tentados a associar ungo com a unção das sagrações reais, por Sagremor descender do rei da Hungria e da filha do imperador de Constantinopla. Ainda assim, a experiência nos aconselha a não confundir os planos semânticos da parofonia com os planos estritamente biográficos, não se exceptuando os fantasiosos. A obtenção do desenho está isolada de outros relacionamentos que não os estabelecidos pela metonimização do referente. Mesmo dando-se o caso da possibilidade de escolha entre vários traços heráldicos, temos observado a preferência de acompanhamento dos estilos visuais de cada época, ao invés de escolhas baseadas no percurso particular do representado. Tal porém já não acontece nas armas alusivas.

Apesar disso considerou-se o próprio nome de Sagremor, com uma solução do tipo Sagremor ~ Sacre (fra. sagração) en or (fra. em ouro), seguindo-se contudo os procedimentos habituais. Assim a unção, ao menos desta vez, ligar-se-ia à entronização dos seus ascendentes e imaginaríamos as estrelas como manchas de óleo sobre as vestes régias em vermelho, cor já usada nas cerimónias medievais. O componente en or diria respeito aos utensílios necessários à guarda e aplicação do óleo, também referenciáveis pela história. Esta solução entra em conflito com o plano semântico apresentado anteriormente, que favorece ungo na forma de acção utilitária. Para mais, teríamos de explicar o cantão e a estrela negra, dificuldade de resolução improvável. Preferimos imaginar aqui uma possível interpretação textual, redundante com o que já se propôs, mas de nenhum modo ligada à proposta semântica visual. Resta-nos aguardar por outros estudos sobre os Cavaleiros da Távola Redonda para decidir sobre a existência de algum padrão comum quanto ao uso da antroponímia dos armigerados.

[1] 2 Sm 1, 21-22.

 

 


Sagremor - Armas de Fantasia (I)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Sagremor
Território M Hungria
Língua de Fantasia V Ungaria (latim)
Denominante A Ungaria
Grafemização A U  |  N  |  G  |  A  |  R  |  I  |  A
Fonemização denominante A u  |  N  |  G  |  a  |  4  |  i  |  a
Emparelhamento A u  |  N  |  G  |  a  |  4  |  i  |  a
A u  | N |  G  | oa |  4  |  e  |  a
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 1,0 | 0,0 | 1,0 | 0,0
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Índice de discrição A k = 0,25
Fonemização designante A u | N | G | o |   | a | 4 | e | a
Grafemização A U | N | G | O |   | A | R | E | A
Designante A ungo | area
Acção + Geometria E unto + área
Monossemia simples S vermelho
S unto o escudo
Metonímia simples S área > campo > campo do escudo > escudo
Esmalte H avermelhado De vermelho
Imanência C couro
Contraste C ouro, prata
Número H um
Separação H cantão
Esmalte H de prata
Conectivo H e
Número H três
Figuração H estrelas de cinco pontas
Número H duas
Esmalte H de ouro
Conectivo H e
Número H uma
Esmalte H de negro
Localização H no cantão

(próxima análise neste blog aqui)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 00:30
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Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

Salerno: Sol e Esmalte Prata

Salerno - Armas de Fantasia

 

Está no Armorial Wijnbergen, documento francês de fins do século XIII[1]. Parece consensual que é falante, mas nunca nos pareceu justificar-se com suficiência o porquê. A razão deve estar ligada ao esplendor da representação solar no centro do escudo, devidamente acompanhada pelos dezasseis raios da praxe heráldica[2]. Isso condicionaria a lógica semântica para a interpretação Salerno ~ Solerno, deixando como de hábito, o restante, tanto a sufixação rno como o fundo prateado, por expor. Poderíamos imaginar uma conexão ao domínio regional dos Hohenstaufen e ao mesmo esmalte do campo no seu escudo, mas não nos lembramos de alguém tê-lo suposto. Como é frequente nestes casos, é possível que se tenha apenas dado atenção aos elementos visuais inteligíveis de imediato.

Tentámos um esclarecimento mais completo no decorrer da tese, mas só agora foi possível chegar a resultados razoáveis o suficiente para defender. Na sucinta análise de então tínhamos optado pela parofonia, hoje abandonada, Salerno ~ Sole (ita. Sol) + ernia (ita. hérnia), com várias incongruências. A primeira refere-se à língua verbalizante, pela adopção do italiano Sole. Apesar do Armorial Wijnbergen ser o primeiro documento em que aparecem, não se garante que fosse ele a representação original destas armas de fantasia; em caso afirmativo optaríamos pelo francês ou pelo latim. Ademais não existem armoriais italianos anteriores nem sequer contemporâneos àquele, pelo que seria difícil aceitar o uso de uma das muitas variantes linguísticas medievais peninsulares. Também a integração semântica entre o “sol” e a “hérnia” é deficiente, apesar de justificarem a associação visual. Quanto ao insólito do “sol herniado”, isso não seria de modo nenhum um obstáculo. Na própria tese pudemos testemunhar na classe das armas reconhecidamente falantes um híbrido animal de cabra e galo, umas mãos cortadas pairando sobre um castelo e três espelhos gigantescos cravados em outras tantas montanhas[3]. Deixámo-nos por certo influenciar pelas interpretações convencionais já conhecidas, dando lugar de relevo ao Sol, forçando por isso uma transformação Sale/Sole. A elucidação do restante da parofonia, rno, é irremediavelmente prejudicada pelos mesmos motivos anteriores. Resta observar que igualmente ficou por explicar o esmalte branco ou prata do escudo.

O denominante agora usado, Salernum (lat. Salerno) é o nome da cidade e eventualmente o do respectivo território, que se presume ser o Principado apesar da integração factual ao Reino da Sicília e à menção no armorial a um fantástico, como de esperar, Rei de Salerno. Mais uma vez o latim aparece como língua de verbalização, consequentemente de fantasia, como em Portucalis ~ Porta cales. Não sabemos dizer se foi “escolhida” na qualidade de língua culta ou por uma natural associação ao território latino da Campânia.

No que diz respeito ao designante, Sal eremum, trata-se de uma polissemia composta porque os dois constituintes textuais irão gerar, mesmo se implicitamente, mais do que dois traços heráldicos. As traduções literais e isoladas de cada termo, sal e ermo ou deserto, podem ser integradas em “sal no deserto” e estender-se, com alguma liberalidade, a um “deserto de sal”. Se bem que o factualmente mais próximo, ao que se saiba, estivesse a Norte de África, iremos, mais uma vez, encontrar possíveis inspirações na Bíblia: … terram fructiferam in salsuginem, a malitia inhabitantium in ea // Il à changé le sol le plus fécond en un terrain aussi sec que si l'on y avoit semé du sel, et tout cela pour punir la méchanceté des habitants[4]. Contudo, é ao avançar na análise semiótica que nos convencemos da propriedade do que se concluiu.

Aparentemente, a integração no âmbito parofónico não se regeria por regras oracionais estritas, dificílimas de aplicar pela frequente ausência do verbo e condicionadas pelo método de obtenção das palavras, inteiramente acidental. Auxiliaria à transformação dos vocábulos ao tomar de início cada sentido isolado, só depois comum, de modo a obter-se uma ou mais imagens visuais. As declinações e todas as flexões em geral funcionariam mais como facilitadores da identidade denominante-designante do que como modificadores semânticos intervocabulares. Evidentemente, necessitam-se mais exemplos para adquirir segurança nesse tipo de generalizações.

Passemos ao cálculo do índice de discrição[5]. Após o emparelhamento do denominante com o designante /s//s/, /a//a/, /l//l/, /E//e/, /r//4/, /_//e/, /n//m/, /u//u/, /m//m/, observamos que há maior quantidade de fonemas no último, portanto max(nD,nd) = max(8,9) = 9[6]. Não existem quaisquer transposições, pelo que t = 0; passaremos a analisar as transformações fonéticas. Estas ocorrem nos emparelhamentos /E//e/, /r//4/, /_//e/, /n//m/; apenas o par /_//e/ é suficientemente heterogéneo para produzir c = 1,0; os outros três, assemelhados, fornecem c = 0,5. Todas as transformações encontram-se no interior das palavras e aplicar-se-á sempre p = 1,0. O somatório dá: 0,5 × 1,0 + 0,5 × 1,0 + 1,0 × 1,0 + 0,5 × 1,0 = 0,5 + 0,5 + 1,0 + 0,5 = 2,5 donde se obtém k = (2,5 × 2)/max(8, 9) = 5,0/9 = 0,556, logo, concluímos pela razoabilidade da parofonia, uma vez que k < 1. Não sabemos se seria possível incluir consistentemente na fórmula de cálculo de k um fenómeno específico a esta parofonia. Ocorre que os trechos /E/r/ ~ /e/4/e/ dificilmente justificariam uma tão grande influência no valor do índice de discrição, cerca de 80% do total k = 0,556. Ao nosso ouvido, a pronúncia de ambas as palavras denuncia uma certa fusão entre os fonemas mediais do designante, tendendo a elidir o segundo /e/, o que diminuiria significativamente o valor encontrado. De qualquer modo, nos parece prematuro aperfeiçoar a modelização nesta fase da pesquisa.

O primeiro elemento do designante, sal, aceita-se facilmente como estando representado no esmalte branco do escudo. Adianta-se que já encontrámos outros exemplos perfeitamente idênticos a esta associação parofónica. Contudo, talvez pareça desnecessário o aspecto redundante na semântica do segundo elemento, eremum, a reforçar o traço heráldico de preenchimento do espaço à volta do sol com a metonimização simples: deserto > amplo > escudo cheio. Para mais, o elemento salino, como sabemos, pode ser obtido pela acção evaporativa dos raios solares. Tal circunstância vai ligar-se por metonímia composta com a aridez que está associada ao deserto. Temos por um lado a sequência de metonimização: sal > evaporação > calor > Sol e pelo outro: deserto > quente > calor > Sol, convergindo ambas para um mesmo tema. Apesar da preeminência solar no desenho, este não passa de uma complementação na forma de adereço, nunca referido directamente pelo designante, como se acreditava anteriormente.

Num paralelo com Portucalis ~ Porta cales, vemos descritas duas versões visuais distintas do Sol. A primeira, simplificada ao máximo, fá-lo redondo e amarelo, na verdade numa função exclusivamente complementar, a caracterizar o azul do campo como um Céu e também a alimentar o fogo do Inferno. A segunda, esta que agora estudamos, mostra os traços clássicos de um Sol heráldico, com raios, centralizado e a ocupar o máximo possível do campo. Note-se que em ambos o disco solar é amarelo, enquanto que na segunda junta-se-lhe o esmalte vermelho a colorir a envolvência dos raios. Estes cromatismos poderiam estar fundamentados nas considerações mais elementares, talvez medievais, sobre a natureza do Sol. Enquanto que o seu calor parecia desvanecer-se quase completamente nos rigorosos Invernos europeus, a luz permanecia inalterada. Assim, a natureza fundamental do Sol deveria ter sido entendida mais como brilho luminoso e menos como potência calorífica. Talvez um reflexo das numerosas associações de Deus com a luz, possivelmente herdadas de crenças pagãs anteriores. Pelo contrário, seria possível associar o calor do Sol ao Inferno graças à autoridade divina, como vimos no artigo já referido acima. Esta dicotomia luz-calor é necessária ao traço heráldico de Salerno porque o calor é uma imanência tanto do deserto como do Sol, ainda mais ligado por metonímia ao sal. O amarelo estaria, portanto, associado à luz, enquanto que o vermelho representaria o calor. Apesar de sabermos perfeitamente que a sombra de sol[7] representa habitualmente aquele astro todo em vermelho, lembramos que as normas heráldicas irão constituir-se apenas muitos anos mais tarde. 

[1]  CLEMMENSEN, Steen - Armorial Wijnberghen - Farum: Acedido a 13 de Junho de 2012, disponível em: <http://www.armorial.dk>, 2009.
[2] TIMMS, Brian - Heraldry- [s.l]: Acedido a 13 de Junho de 2012, disponível em: <http://www.briantimms.fr>, 2011.
[3] Respectivamente condados de Ziegenhein, Antuérpia e Spiegelberg.
[4] BERTHIER, Guillaume F. - Les Psaumes Traduites en François, avec des Rèflexions - 3ª ed. Tomo IV - Adrien Le Clère  - Paris - 1807 - p. 592.
[5]  Ver o artigo Portucalis ~ Porta cales.
[6] Usamos, como de hábito, a codificação X-SAMPA.
[7] Designação do brasonamento de um sol com dezasseis raios, tudo em vermelho.

 

 


Salerno - Armas de Fantasia

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Rei de Salerno
Territorial M Salerno
Língua de Fantasia V Salernum (latim)
Denominante A Salernum
Grafemização A  S  |  A  |  L  |  E  |  R  |  N  |  U  |  M 
Fonemização denominante A [  s  |  a  |  l  |  E  |  r  |  n  |  u  |  m ]
Emparelhamento A [  s  |  a  |  l  |  E  |  r  |  _  |  n  |  u  |  m ]
A [  s  |  a  |  l  |  e  |  4  |  e  |  m  |  u  |  m ]
Coeficiente de transposição A 0,0|0,0|0,0|0,0|0,0|0,0|0,0|0,0|0,0
Coeficiente de carácter A 0,0|0,0|0,0|0,5|0,5|1,0|0,5|0,0|0,0
Coeficiente de posição A 0,0|0,0|0,0|1,0|1,0|1,0|1,0|0,0|0,0
Parcelas A 0,0|0,0|0,0|0,5|0,5|1,0|0,5|0,0|0,0
Índice de discrição A k = 0,56
Fonemização designante A [  s  |  a  |  l  |  _  |  e  |  4  |  e  |  m  |  u  |  m ]
Grafemização A  S  |  A  |  L  |  _  |  E  |  R  |  E  |  M  |  U  |  M 
Designante A sal | eremum
Polissemia composta S sal | deserto
S sal | quente, amplo, árido
Material + Toponímia E sal + deserto
Esmalte H esbranquiçado De prata
Imanência C sal
Contraste C vermelho
Separação H amplidão (cheio)
Imanência C deserto
Metonímia simples S deserto > amplo > escudo cheio
Número H 1 uma
Metonímia composta 1/2 S deserto > árido > quente > calor > Sol
Figuração H Sol sombra de Sol
Preenchimento C área do escudo
Centralidade C coração do escudo
Adereço C fonte de calor
Esmalte H calor (de vermelho)
Imanência C Sol
Contraste C prata, ouro
Metonímia composta 2/2 S sal > evaporação > calor > Sol
Conectivo H sombra de Sol + besante carregada de
Número H 1 um
Figuração H redondo besante
Imanência C Sol
Esmalte H luz de ouro
Imanência C Sol
Contraste C vermelho

(próxima análise neste blog aqui)



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