Sábado, 20 de Outubro de 2012

Reis de Jerusalém: Disposição das Cruzetas

Reis de Jerusalém

 

A Torre de Godofredo

Uma vez que justificámos a presença das cruzetas, é tempo agora de determinar o motivo da sua configuração e aperfeiçoar a definição do número respectivo. As fontes mostram várias quantidades ao longo do tempo; é razoável supor que não existisse disponível para as parofonias nenhuma exigência rigorosa e de aplicação universal. Foi possível, contudo, fundamentar o arranjo e o número tomando-se como ponto de partida a Torre de David.

Acreditava-se que a Torre de Phasael estivesse na antiga cidadela do Rei David, designada em sua homenagem graças a esta confusão, como Torre de David. Godofredo de Bulhão usou a Torre como seu palácio e esta situação manteve-se até 1104, quando a Cúpula do Rochedo transformou-se em residência real; ambas apareceriam em peças numismáticas locais. A Cúpula foi dada à Ordem do Templo em 1119 e os reis mudaram-se então para um novo palácio, próximo à Torre de David.

 

Vizinhos mas não Residentes

Em conformidade, o emparelhamento denominante ~ designante estabelece-se com: en Tur (fra. em Torre) ~ entur (fra. à volta). Empregou-se a preposição en em lugar de dans la (Tur) ou en la (Tur) porque deveria referir um estado ou uma situação, em vez de uma localização dentro do mencionado edifício; exemplificamos ainda com en prison e dans la prison. De facto a Torre de David refere não só a torre como também a cidadela onde foi construído o terceiro palácio dos Reis de Jerusalém.

Poderá ter actuado acessoriamente como um tributo heráldico tardio a Godofredo, mas prevalece o conceito da residência num bairro chamado Torre de David onde viveu o primeiro Rei a usar estas armas. Assim, não podemos inferir desta representação heráldica da Torre que as armas foram concebidas durante a vida do Protector do Santo Sepulcro, a menos que documentação convincente apareça para provar o oposto. Mesmo depois de perder a sua condição de paço, a construção ainda aparece durante muito tempo nas moedas dos sucessores de Godofredo. O estudo do sexto nível reforçará os indícios desta relação.

 

Sem Metonímias

As metonímias são necessárias em especial quando o significado do designante é visualmente inadequado ou a etapa de especificação é impotente para decidir entre as opções disponíveis.  Aqui não ocorrem metonimizações; o conceito de “à volta” é mais do que suficiente para os objectivos do delineamento heráldico: temos apenas de considerar as peças de que dispomos. O designante entur refere portanto que algo, entendido como as cruzetas, deve circundar uma outra entidade, interpretada como a cruz. Não existem outras figurações presentes e o inverso seria inviável.

O termo “entre”, saído do escasso vocabulário do brasonamento, é desajeitado mas engenhoso, a declarar que as cruzetas devem ser colocadas a intermediar cada dois braços adjacentes na cruz. Deixa o restante da estrutura para os complementos heráldicos de modo a alcançarem-se os resultados visuais definitivos.

 

Um Quadrado à Volta

As considerações acima e o visível, embora aparente, contacto físico entre todos os cinco elementos não expõem, possivelmente, uma construção semântica primitiva mas a consequência de outras necessidades fundamentais que apenas surgirão explícitas no quinto nível. Já sabemos que as primeiras versões conhecidas das cruzetas não tocam a cruz maior, ao invés disso estão espalhados ordenadamente pelos cantões. Nesta fase pode-se constatar que as cruzetas estão adjacentes à cruz mas uma vez concluído o desenho do brasão o seu aspecto vai alterar-se: as quatro figurações menores estarão situadas no meio dos cantões de uma cruz potenteia.

Referimos ainda outras complementações mais evidentes: o preenchimento será regulado pela dimensão das cruzetas a pelo espaço deixado livre nos cantões; quanto à simetria dependerá das diagonais que passam pela intersecção dos braços centrais e, simultaneamente, da própria cruz. O centro do escudo regrará a centralidade do grupo de cruzetas como já fez para a cruz, organizando uma espécie de quadrado imaginário que passa através dela.

 

Organizem-se as Cruzetas

Devemos distinguir agora três circunstâncias distintas para as características complementares das cruzetas. A primeira já foi abordada no último nível semântico onde a orientação e a simetria referiam-se aos componentes próprios a cada cruzeta. A segunda trata da sua situação isolada com respeito ao espaço envolvente. Uma terceira considera como todas as cruzetas irão relacionar-se em conjunto com os outros elementos e com o escudo. Há uma quarta situação, a incluir um componente suplementar camuflado, que será conhecida posteriormente.

Para mostrar com maior clareza a estrutura semântica seria preciso distinguir a posição e a disposição ao brasonar, como se mostra na tabela abaixo. O problema é que a disposição está incorporada no sentido de “entre” enquanto que, ao mesmo tempo, os quatro elementos menores são obstruídos pela peça principal. O brasonamento não permitirá descrever a situação com o termo “dois e dois”, previsto para contiguidades repetitivas. Em consequência, imaginou-se uma descrição alternativa que pudesse adaptar-se a esta circunstância pela junção de um “+” ou “mais” sempre que exista um espacejamento mais extenso ou outros elementos inseridos entre peças idênticas alinhadas na horizontal. Daí, o arranjo que se considera actualmente seria descrito abreviadamente como “um mais um e um mais um” ou “1 + 1 e 1 + 1”.

 

Quatro ou Mais

Vimos que até agora não houve necessidade de substanciar um número preciso de cruzetas no brasão e, de facto, elas surgem de modo distinto nos documentos mais antigos. Como ignoramos o aspecto exacto da primeira de todas as descrições das armas de Jerusalém, é possível que um entendimento posterior atribuísse algum significado àquelas quantidades dissimilares, ou mesmo conformassem-se com um arranjo coerente ao incluir um referente adicional, ou até deixando tudo à mercê do efeito de avaliações pragmáticas que não interferissem parofonicamente com os traços heráldicos correspondentes.

Entretanto, o limite inferior para a quantidade de cruzetas foi alargado. Enquanto que cions garantia ao menos dois elementos, entur acrescentará mais duas unidades a esta restrição. A cruz possui quatro reentrâncias entre os pares de braços adjacentes e cada uma deve estar provida de uma cruzeta ao menos; essas quatro são o mínimo suficiente para preencher o perímetro. Atingimos assim o número visível na representação clássica que estamos a estudar e talvez sejamos tentados a abandonar outras quantidades por injustificáveis.

             

Tantas Quantas Sejam Necessárias

No começo, a noção de “rebentos” desencadeou o aparecimento de outras versões para as armas de Jerusalém, com catorze ou quinze cruzetas. Poderíamos explicá-los como os três Evangelistas ulteriores ao enredo heráldico mais os doze Apóstolos, incluindo-se aí João e Matias, ou contando-se apenas onze Discípulos à data da crucifixão no caso das catorze cruzetas. Ademais, não seria difícil de imaginar as cruzetas dispostas à volta da cruz do Mestre como seguidores a ouvir as suas palavras, mas já assumiu-se que Ele estava definido no enredo visual como um cadáver. Talvez a ideia inicial não fosse tão específica e contasse as ditas quantidades indistintamente como uma multidão, a Igreja. 

A reunião dos conceitos formais gerados pelas quatro parofonias iniciais Ézéchias ~ Exequies, Jérusalem ~ Je ruse la haine, Sion ~ Cions e en Tur ~ entur está presente na maior parte das variedades conhecidas das armas de Jerusalém: uma cruz rodeada por cruzes menores. Os níveis que se seguem terão sido um acréscimo eventual e posterior ou constituiriam uma disposição alternativa dos elementos, a desconsiderar algumas das suas características anteriormente definidas. Continuaremos com a justificação da existência estrita de apenas quatro cruzetas e a conformação simultânea da típica cruz potenteia que todos conhecemos.

 

Reis de Jerusalém - Disposição

Reis de Jerusalém (IV)

Classificação Descrição
Armas de Domínio R Reis de Jerusalém
Residência M em Torre (de David)
Língua de Conquista V Francês
Denominante A en Tur
Grafemização A  E  |  N  |    |  T  |  U  |  R 
Fonemização denominante A  ã  |  t  |  u  |  R\ 
Emparelhamento A  ã  |  t  |  u  |  R\ 
A  ã  |  t  |  u  |  R\ 
Coeficiente de transposição A 0,0 |0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de carácter A 0,0 |0,0 | 0,0 | 0,0 
Coeficiente de posição A 0,0 |0,0 | 0,0 | 0,0 
Parcelas A 0,0 |0,0 | 0,0 | 0,0 
Índice de discrição A k = 0,0
Fonemização designante A  ã  |  t  |  u  |  R\ 
Grafemização A E | N | T | U | R
Designante A entur
Geometria E à volta
Monossemia simples S entre
S entur
Esmalte H De prata
Número H uma
Figuração H cruz
Aspecto H potenteia
Esmalte H de ouro
Localização H cantões da cruz entre
Simetria C diagonais radiais
Preenchimento C área dos cantões
Disposição H à volta (1 + 1 e 1 + 1)
Simetria C cruz
Centralidade C abismo
Número H quatro
Figuração H cruzetas
Esmalte H do mesmo

 (próximo artigo nesta série V/XII)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 17:47
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