Sábado, 7 de Julho de 2012

Sagremor: Cantão de Prata

Sagremor - Armas de Fantasia

 

Continuaremos a caracterizar as armas de Sagremor neste terceiro plano semântico. Estabelecidas as coordenadas húngaras das metonímias referentes, é natural que se continue pelo mesmo tom, obedecendo à restrita tipologia definida nos quase dois mil traços heráldicos já investigados. Para Sagremor encontrámos num  primeiro nível semântico a metonimização do seu referente em território, em gentílico no segundo e finalmente em hidrónimo no que iremos desenvolver a seguir.

Continuando com a expressão verbalizante em latim, achamo-nos desta vez perante o majestoso rio de Budapeste, o denominante Danubius (lat. Danúbio). Resulta num índice de discrição bastante favorável, k = 0,14, parófono ao designante da (lat. diz) nubis (lat. nuvem). Ressaltamos tomar-se iu em Danubius como ditongo, porque este i é breve, figurando assim numa única célula a emparelhar com o outro i de nubis. Note-se que a contagem do número máximo de fonemas alterou-se de oito para sete por este motivo. O verbo do (lat. dar) possui um grande número de acepções, das quais algumas poderiam ser usadas no contexto. Pensamos, contudo, que a forma imperativa da segunda pessoa é a mais adequada, com o sentido de “Diz!” ou Explica!.

Danubius ~ Da nubis produz uma monossemia simples, já que é responsável pelo cantão em prata. É bem verdade que a alteração do esmalte da estrela correspondente de ouro em negro também lhe será imputada, mas como consequência secundária da sematização dos traços heráldicos pré-definidos. Como no nível precedente há metonímia redundante: diz não está associado a qualquer traço heráldico mas à própria função parofónica do escudo pelas contiguidades diz > falante > armas falantes, o que de facto são. O segundo termo, nubis, não deixa qualquer lugar a dúvidas, seja pelo sentido, seja pela complementaridade ao que se tinha já averiguado. Definido que estava o tema estelar, nada mais apropriado do que este fenómeno meteorológico para conjugar uma belíssima ordenação heráldica.

A nuvem é branca, convenientemente, e esconde a luz ao “passar” em frente a uma das estrelas, transformando o seu esmalte dourado. Assinalamos, pois, o fenómeno sematizante de oposição entre a luz e a obscuridade. Ademais, a estrela solitária vai colocar-se exactamente no centro do cantão, a condicionar o posicionamento das outras duas, como referido. Percebe-se com clareza a exigência do processo iterativo na génese destes brasonamentos medievais. Não seria possível definir o arranjo das estrelas e da nuvem em duas construções estanques e independentes. O brasonamento estabelece ainda que a estrela deve achar-se sobre o cantão, apesar da semântica demandar o inverso, fazendo-nos entender que nem sempre a descrição expressiva formal será um guia mais adequado para a compreensão do conteúdo subjacente. Creio que será esta a dificuldade capital para que a ciência heráldica liberte-se das interpretações convencionalizadas pelas normativas tardias.

Segundo parece, simboliza-se no desenho outra característica imanente às nuvens, o movimento, talvez em simultâneo com o fenómeno de complementação dos traços heráldicos. A nebulosidade não poderia ocupar todo o campo do brasão: perderia muito da sua força expressiva. Excluímos assim de todo a obstrução das três estrelas. Só a oposição amarelo × negro permite vislumbrar com clareza o enredo que se procura representar. A ocupar apenas um pedaço do campo, um farrapo de nuvem apresta-se a ocultar apenas uma estrela, também no primeiro cantão do esquartelado, como é hábito, aliás, nos brasonamentos. Ao mesmo tempo esta localização provoca o desequilíbrio visual pela assimetria dos espaços cromáticos. O desequilíbrio traduz-se em movimento e vai contribuir à semântica através de outra metonímia: nuvem > movimento > desequilíbrio > assimetria. A opção de usar-se, por exemplo, um contrachefe em branco, deixaria a desejar pela estabilidade implícita.

 

 


Sagremor - Armas de Fantasia (III)

Classificação Descrição
Armas de Fantasia R Sagremor
Hidrónimo M Danúbio
Língua de Fantasia V Danubius (latim)
Denominante A Danubius
Grafemização A  D  |  A  |  N  |  U  |  B  |  I  |  U  |  S 
Fonemização denominante A d  |  a  |  n  |  u  |  b  |  iu |  s 
Emparelhamento A d  |  a  |  n  |  u  |  b  |  iu |  s 
A d  |  a  |  n  |  u  |  b  |  i |  s 
Coeficiente de transposição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0
Coeficiente de carácter A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Coeficiente de posição A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 1,0 | 0,0
Parcelas A 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,0 | 0,5 | 0,0
Índice de discrição A k = 0,14
Fonemização designante A d | a |   | n | u | b | i | s
Grafemização A D | A |   | N | U | B | I | S
Designante A da | nubis
Acção + Meteorologia E diz + nuvem
Redundância, metonímia simples S diz › falante › arma falante
S diz
Monossemia simples S cantão
S nuvem
Esmalte H De vermelho
Número H 1 um
Separação H farrapo cantão
Imanência C nuvem
Localização C primeiro quartel
Simetria C assimétrico
Metonímia simples S nuvem › móvel › desequilíbrio › assimetria
Esmalte H esbranquiçada de prata
Imanência C nuvem
Contraste C vermelho, negro
Conectivo H cantão + estrelas e
Número H três
Figuração H estrelas de cinco pontas
Número H duas
Esmalte H de ouro
Conectivo H estrelas + estrela e
Número H 1 uma
Figuração H 5 pontas (estrela)
Preenchimento C área do cantão
Simetria C eixo vertical do cantão
Centralidade C diagonais do cantão
Esmalte H obstrução de negro
Imanência C nuvem
Contraste C prata
Oposição S luz × obscuridade
Localização H debaixo da nuvem no cantão

(próximo artigo nesta série III/III)



Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 13:56
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