Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Objecção III - O Papel da Tradição Narrativa

P: Por quê a tese parece contrariar a tradição narrativa heráldica?

R: Nunca esteve nos meus horizontes a análise específica e aprofundada deste problema, que considero algo a jusante dos objectivos da tese, até porque esta dúvida não será propriamente uma objecção fundamental. A tradição neste caso é o relato de um acontecimento passado que umas gerações vão transmitindo a outras sucessivamente, até aos dias de hoje. Não se tratam de factos comprovados cientificamente como verdadeiros, mas podemos considerá-los em alguns casos como fontes documentais subsidiárias, a maior parte das vezes com grandes reservas. Ao revivê-los, especialmente se directamente afectados por eles, somos tentados a ignorar que estes legados sofreram a decrepitude imposta naturalmente pelo tempo. Seria natural esperar que a memória de episódios de há muitas centenas de anos tenham sido alteradas em maior ou menor grau, quando não passaram mesmo a pertencer ao domínio da fantasia. Constatamos como outra ciência auxiliar da História, a Genealogia, baseia muitas vezes as suas narrativas fundacionais em actos ousados, generosos, galantes ou até mesmo testemunhando a intervenção divina para justificação da nobreza de cada linhagem. É bem verdade que não são tidas em grande conta pelos próprios genealogistas mas por alguma razão esta apreciação parece alterar-se quando o assunto em discussão é a heráldica.

O nosso posicionamento não será tão severo como no primeiro caso, nem tão benevolente como no segundo. Julgamos que toda a narrativa tradicional associada a um brasão deva estar sempre bem presente no estudo da pragmática construída à volta de cada criação armorial; muitas vezes é o único elo que nos resta para além dos traços heráldicos. Porém isso não quererá dizer que se lhe devam atribuir foros de premissas incontestáveis. Apesar de tudo, um número bastante razoável de armas analisadas e comparadas com aquelas narrativas apresentou pontos de contacto manifestos. O estado presente da investigação permite aconselhar e incentivar o estudo desses pontos de contacto de modo a poder considerá-los mesmo como justificativas que reforçam as nossas hipóteses. Mas nenhum dos casos em estudo permite garantir um acordo próximo do absoluto entre os factos narrados e a semântica da respectiva construção armorial feita segundo a nossa metodologia.  

 

D. Afonso Henriques


Ademais, os mecanismos expressivos são bem distintos. O modelo parofónico procura uma explicação metodológica, em que cada uma das explicações dos traços visuais se fundamenta num reduzidíssimo número de proposições metonímicas, aplicáveis a qualquer caso. Os modelos tradicionais, por sua vez, usam todos os recursos da língua para expor uma história, verídica ou não, ajustada aos componentes de cada brasão.

Resumindo, ao aceitar-se a tese que proponho, esta representaria, na verdade, a recuperação de uma tradição que se perdeu ou deturpou com o tempo. Não se poderá dizer, portanto, que contrarie a tradição mas apenas que apresenta uma nova versão da verdade dos factos. E como, quando desconhecemos a verdade absoluta, ela nem sempre é uma só, afirmamos apenas que, em média, os resultados da tese discordam em boa parte das versões tradicionais que a antecederam, apesar de concordarem com elas em alguns pontos particulares.


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Publicado por 5x11 - Carlos da Fonte às 17:31
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